Essa pagina depende do javascript para abrir, favor habilitar o javascript do seu browser!
Ir direto para menu de acessibilidade.
Página inicial > Últimas Notícias > Pesquisa do IFS revela histórias de vida preservadas em ossos humanos e amplia estudos científicos em Sergipe
Início do conteúdo da página
DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Pesquisa do IFS revela histórias de vida preservadas em ossos humanos e amplia estudos científicos em Sergipe

Publicado: Quarta, 29 de Abril de 2026, 15h27 | Última atualização em Quarta, 29 de Abril de 2026, 15h27

Estudo desenvolvido no Campus São Cristóvão identifica traumas, próteses, sinais de doenças e destaca importância de acervos osteológicos para ensino e pesquisa

Por Monique de Sá

WhatsApp Image 2026 04 29 at 14.57.22Um grupo de pesquisadores do Instituto Federal de Sergipe (IFS), Campus São Cristóvão, publicou um estudo que transforma ossos humanos em fontes valiosas de conhecimento científico. A pesquisa mostra como estruturas ósseas podem revelar marcas de doenças, acidentes, envelhecimento e até intervenções médicas realizadas em vida.

O trabalho foi publicado na Revista Sociedade Científica, periódico multidisciplinar de acesso aberto voltado à divulgação de pesquisas nas áreas da saúde, ciências biológicas e humanas. A equipe é formada pelo docente Juliano Lima e pelas estudantes do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas: Nely Oliveira e Maria José da Costa.

WhatsApp Image 2026 04 29 at 14.54.11Intitulado: “Caracterização osteológica do acervo ósseo humano do Instituto Federal de Sergipe”, o artigo traz a análise de uma coleção composta por 20 esqueletos humanos identificados. Entre os achados, estão fraturas cranianas cicatrizadas, próteses ortopédicas de fêmur com integração ao osso e até um cálculo biliar encontrado junto aos restos mortais. Mais do que peças anatômicas, os materiais estudados ajudam a compreender aspectos biológicos e sociais da população analisada.

“Nossos achados mostram que os ossos não devem ser vistos apenas como restos mortais, mas como registros de histórias de vida. Eles guardam informações sobre doenças, acidentes, intervenções médicas e envelhecimento”, explica Juliano.

O estudo teve início em 2024, a partir do Edital nº 10/2023/PROPEX/IFS – PIALAB 2023. Inicialmente, a proposta estava relacionada à necessidade de estruturação do Laboratório de Anatomia Humana do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do IFS, Campus São Cristóvão.

WhatsApp Image 2026 04 29 at 14.54.10Segundo Juliano, o edital permitiu adquirir materiais e organizar a estrutura necessária para o funcionamento do espaço. Durante esse processo, a equipe começou a trabalhar com material ósseo humano proveniente da Empresa Municipal de Serviços Urbanos (Emsurb). “À medida que realizávamos a higienização e a fixação dos ossos, começamos a observar características muito relevantes, como marcas de traumas, alterações degenerativas, ausência dentária, próteses ortopédicas e outros vestígios biológicos. Percebemos então que aquele material apresentava uma riqueza muito grande de informações anatômicas”, conta Juliano.

Diante desse potencial científico, o grupo decidiu organizar oficialmente uma coleção osteológica vinculada ao laboratório, catalogando o acervo e registrando suas principais características.

Achados que chamaram atenção

Entre os resultados que mais despertaram a atenção da equipe estão sinais de traumas, alterações degenerativas, próteses ortopédicas e até materiais biológicos preservados ao longo do tempo. O estudo examinou 20 esqueletos humanos identificados, sendo 10 masculinos e 10 femininos, com idades que variavam de menos de 40 anos a mais de 80 anos.

“Um dos casos mais marcantes foi o do Indivíduo 18, que apresentava uma fratura cicatrizada nos ossos frontal e parietal, indicando que a pessoa sobreviveu ao trauma. Já o Indivíduo 12 apresentava perfuração craniana e fratura facial, achados que podem estar associados a uma morte violenta”, detalha o docente.

Outro caso que surpreendeu os pesquisadores foi o do Indivíduo 7, que possuía duas próteses nos fêmures com excelente osseointegração, além da presença de um cálculo biliar encontrado junto ao esqueleto.

A análise também identificou sinais de porosidade óssea em fêmures e tíbias, compatíveis com doenças degenerativas, como osteoartrite e osteoporose. Em alguns indivíduos, ainda foram encontrados vestígios biológicos preservados, como cabelos e adipocera, substância gordurosa resultante do processo de decomposição, aderida a ossos da região do quadril.

Teoria e prática na formação estudantil

capaAlém da relevância científica, o estudo também teve papel importante na formação acadêmica das estudantes envolvidas. Voluntária da pesquisa, Nely Oliveira participou de diversas etapas do trabalho, desde a análise das peças até a produção do artigo científico.

“Após a identificação, análise, descrição e sistematização dos caracteres osteológicos encontrados nas peças anatômicas, iniciei a escrita do referencial teórico deste trabalho. Pesquisas e leituras de artigos na área de Anatomia Humana, com foco em osteologia, ajudaram-me a escrever os resultados publicados neste artigo”, diz a estudante.

Segundo Nely, o contato direto com o acervo amplia a aprendizagem teórica e prática. “O acervo permite o contato direto com peças anatômicas reais, favorecendo a aprendizagem teórica e prática dos estudantes. A nossa pesquisa estimula o desenvolvimento de habilidades científicas e contribui com a valorização dos acervos científicos do nosso campus”.

Ciência e Memória

Juliano destaca que pesquisas como essa mostram como um mesmo acervo pode dialogar com diferentes áreas do conhecimento. “Para a Biologia, a coleção contribui para o ensino da anatomia humana, da osteologia e dos processos biológicos relacionados ao envelhecimento, às doenças e às adaptações do corpo. Para a Antropologia, especialmente a Antropologia Forense, o acervo oferece informações sobre características populacionais, traumas, variações anatômicas e condições de vida”.

Os pesquisadores também chamam atenção para a importância de desenvolver esse tipo de estudo no Nordeste, região que ainda possui número reduzido de coleções osteológicas documentadas e representativas da diversidade brasileira.

Nesse cenário, Juliano reforça o valor científico da coleção do IFS, Campus São Cristóvão. “Mesmo sendo um acervo pequeno, ele apresenta grande variabilidade anatômica e patológica”, destaca. Para o docente, isso contribui diretamente para a formação de estudantes, o treinamento em osteologia e o aprimoramento de métodos forenses mais próximos da realidade regional.

Novas possibilidades

A equipe também vê potencial para novas investigações com base no acervo. Entre as possibilidades estão estudos osteométricos, com medições detalhadas dos ossos para análise de características morfológicas e padrões populacionais.

“Além disso, a coleção pode servir de base para pesquisas voltadas ao ensino de Anatomia Humana, à formação de professores de Biologia e ao desenvolvimento de materiais didáticos”, ressalta o pesquisador.
Para Nely, a experiência deixou aprendizados que vão além da Ciência, ao mostrar a importância de valorizar as características morfológicas dos ossos, pós mortem e o quanto essas informações podem contribuir com políticas públicas de melhoria na qualidade de vida da população. “Proporcionou também o desenvolvimento do senso de responsabilidade ética no manuseio de material humano. Aprimorou minhas habilidades de organização, trabalho em equipe e pensamento crítico/científico”, acrescenta a futura professora pesquisadora na área de Ciências Biológicas.

registrado em:
Fim do conteúdo da página