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reportagem especial

Saberes familiares encontram novos métodos para orientar escolhas na produção rural

Escrito por GERALDO BULHOES BITTENCOURT FILHO | Última atualização em Quarta, 20 de Mai de 2026, 11h23

Antonio principalSaberes familiares encontram novos métodos para orientar escolhas na produção rural

Na noite de 13 de dezembro, quando o calendário marca o dia de Santa Luzia, há quem ainda prepare uma telha e distribua sobre ela pequenas porções de sal granulado, cada uma representando um mês do ano seguinte. A experiência é antiga: coloca-se o sal às seis horas da noite e, ao amanhecer, a telha é lida como calendário: o sal derretido apontaria meses de chuva; o sal intacto, meses de estiagem. No semiárido sergipano, essa leitura não é brincadeira nem superstição isolada; é parte de um modo de observar o tempo quando o trabalho depende daquilo que ninguém consegue mandar acontecer. Hoje, 25 de maio, quando se celebra o Dia do Trabalhador Rural, essa cena ajuda a lembrar que a força das mãos nunca esteve separada da leitura do clima, do solo, dos animais e do mercado.

Clodoaldo Antônio Santos de Almeida, que prefere ser chamado de Antônio por sua fé em Santo Antônio, aprendeu cedo que o campo começa antes da enxada. Começa na espera. Filho de Antônio Inácio e Josefa Santos, agricultores de Poço Verde, ele cresceu vendo a família cultivar milho, feijão e algodão, em uma rotina na qual a observação da natureza, o esforço físico e a negociação da safra formavam a mesma escola. Hoje, estudante do curso técnico em Agropecuária e do superior em Agroecologia no Instituto Federal de Sergipe (IFS), Campus São Cristóvão, Antônio olha para essa memória com outro vocabulário, mas sem abandoná-la. No IFS, aquilo que antes se aprendia pela convivência com a terra passa a dialogar com análise de solo, manejo, calendário agrícola, escolha de sementes e interpretação técnica do clima. A experiência dele revela o centro dessas histórias: no campo, planejar é indispensável, mas decidir é sempre lidar com uma parte do mundo que não se controla. “O agricultor é um homem de fé”, revela Antônio, ao lembrar que uma chuva boa em março pode bastar para alguém preparar o solo, plantar em abril e descobrir, semanas depois, que o inverno não seguiu adiante. (LEIA A ENTREVISTA COMPLETA)

A aprendizagem pela espera e pela observação atravessou a infância de Antônio. Quando criança, ele via o campo em fileiras largas, abertas com tração animal, com o pescador passando entre as linhas para lançar terra aos lados do feijão ou do milho. A capina era feita com enxada; a colheita, com mãos suficientes para quebrar o milho, ensacar, amontoar e esperar a máquina ou o trabalho no cacete. Na casa da família, os grãos eram guardados até o dia de negociação. Na feira do centro da cidade, não se levava a produção inteira, porque toneladas não cabiam numa carroça nem podiam voltar caso não houvesse comprador. Levava-se uma amostra. Por ela, decidia-se o valor, e, se o acordo vingasse, alguém ia buscar a safra armazenada em casa. A feira livre ficava para porções menores, como o feijão de corda. Na mesma terra, havia muitas espécies de milho e feijão: milho crioulo, milho para pipoca, milho branco para munguzá; feijão branco, rosinha, preto e carioca. A diversidade era uma forma de alimento, renda e memória. Com o tempo, a mecanização entrou na propriedade, a mão de obra diminuiu e o cultivo foi se concentrando. O que antes levava uma semana para plantar passou a ser feito por um trator em oito horas. “Antigamente existia muito mais mão de obra e era muito mais fácil fazer o plantio, o manejo e depois a colheita. Com o passar do tempo, os implementos agrícolas começaram a ingressar nas áreas rurais. Aí você reduz a mão de obra e planta um único cultivo”, resume Antônio, antes de explicar que cultivos como abóbora, batata e feijão ficaram mais restritos ao consumo próprio.

Antõnio 2Essa passagem da roça diversificada para a lavoura mecanizada não aparece, na fala dele, como uma simples troca de ferramentas. Ela muda a organização da família, a relação com o mercado, a dependência de crédito e o risco de perda. Antônio distingue produtores da agricultura familiar que plantam com recursos próprios daqueles que dependem de financiamento bancário, projeto técnico, calendário de plantio e cobertura por seguro. No caso do milho, explica, o produtor financiado precisa respeitar uma janela, que, segundo ele, vai de 11 de abril ao fim de maio, para estar protegido em caso de intempérie climática. Quem planta fora da previsão ou sem cobertura assume outro tipo de risco. Ainda assim, nada elimina a margem de incerteza. Ele conta que um produtor plantou no dia 15 de abril após as boas chuvas de março e perdeu a lavoura porque a chuva esperada não continuou. A decisão não era absurda; era a decisão possível naquele momento. O mercado orientava a cultura, a chuva havia dado sinal, o solo fora preparado. Faltou justamente o elemento que ninguém controla. Antônio conta que, depois das boas chuvas de março, um produtor preparou a terra e plantou em abril, esperando a continuidade do inverno. “Não houve a mesma sequência. Ele já perdeu a safra e vai ter que refazer todo o manejo do solo para plantar novamente”, relata. No campo, a perda não chega apenas pela seca. Chega pelo bicudo que atacava o algodão antes que houvesse tempo de reação, pela lagarta do cartucho no milho, pela ferrugem que apodrecia a vagem do feijão. A técnica amplia a capacidade de resposta, mas não apaga o risco que acompanha cada safra.

A terra como leitura

No Brasil, a escala dessa experiência individual ajuda a entender por que a formação técnica no campo tem efeito para além da sala de aula. O Censo Agropecuário de 2017, do IBGE, registrou que cerca de 77% dos estabelecimentos agropecuários do país foram classificados como de agricultura familiar; eles ocupavam 23% da área total dos estabelecimentos, respondiam por 23% do valor da produção e concentravam cerca de 10,1 milhões de pessoas, o equivalente a 67% da mão de obra ocupada nos estabelecimentos agropecuários. Esses números mostram que a agricultura familiar não é um resíduo do passado, mas uma base concreta de trabalho, renda, permanência territorial e produção de alimentos, inclusive em regiões submetidas a irregularidade de chuvas, pressão de mercado e mudanças no uso do solo. Ao mesmo tempo, estudos e publicações técnicas da Embrapa sobre adaptação agropecuária às mudanças do clima reforçam a necessidade de combinar conhecimento local, conservação da agrobiodiversidade, manejo do solo, armazenamento de água e alimentos e escolha de espécies adaptadas às condições ambientais. No cotidiano de estudantes como Antônio, essas estatísticas aparecem em decisões menores e repetidas: que semente comprar, quando esperar, quando plantar, quando refazer o manejo, quando abandonar uma prática antiga e quando preservá-la.

Antônio chegou ao IFS depois de uma trajetória longa. Diz que levou 20 anos para alcançar o Instituto e que não sabia, antes, da existência do Campus São Cristóvão. Ao entrar no espaço, encontrou setores, departamentos, servidores, estudantes e áreas de prática que lhe deram a sensação de ter encontrado uma estrutura capaz de reunir aquilo que ele já conhecia do campo com aquilo que ainda poderia aprender. A agropecuária, para ele, é uma área de base, porque sustenta outras cadeias, da produção de leite e sementes à piscicultura e à agroindústria. A agroecologia, porém, o tocou por outro caminho. “O que mais mexeu comigo, o que mais me encantou, até agora, na área da agroecologia, não foi nenhum manejo do solo, não foi a compostagem, foi a questão social”, revela. Ele associa a agroecologia ao pequeno produtor que tem um quarto de terra, uma tarefa, uma área pequena demais para interessar ao crédito ou aos projetos tradicionais. Em sua leitura, a formação não deve se limitar ao aumento da produtividade; deve alcançar quem costuma ficar fora da conta. Essa percepção também aparece no projeto de que participa no IFS, o Guardião de Sementes Crioulas, voltado à preservação de sementes de milho transmitidas de geração em geração. Nele, o aprendizado técnico se aproxima da memória familiar: o milho crioulo que vira pamonha, canjica e cuscuz passa a ser também objeto de pesquisa, conservação e disseminação.

Há, na fala de Antônio, um ponto que desloca a reportagem do plano produtivo para o social. Ele observa que, em regiões como Carira, Simão Dias e Poço Verde, municípios apontados por ele como grandes produtores de milho em Sergipe, alguns produtores maiores têm comprado terras de pequenos agricultores. Segundo seu relato, quando recebem ofertas acima do mercado, os menores vendem, mudam-se para a cidade e se veem diante de uma realidade para a qual nem sempre foram preparados. “Eles não sabem fazer nada na cidade. O que eles sabem é produzir, é no campo”, explica. A afirmação não aparece como condenação de um indivíduo, mas como alerta sobre um processo. A mecanização que reduz mão de obra, o crédito que chega com exigências, o mercado que define a cultura, o clima que altera a safra e a concentração de terras que muda a vida comunitária formam um sistema em que a decisão rural raramente é apenas técnica. No IFS, essa complexidade ganha nomes: manejo do solo, análise de nutrientes, controle de pragas, biofertilizantes, mercado e soberania alimentar. O que antes se resolvia pela experiência, pela conversa e pela tentativa passa a ser lido também com instrumentos, conceitos e critérios. A escola não substitui a roça; ela oferece outra lente para enxergá-la.

Antonio EmanuelEm Nossa Senhora da Glória, outro Antônio amplia o sentido da gestão do imprevisível para uma paisagem em que o risco também passa por motor, bateria, hélice e sinal de comando. Antônio Emanuel Vieira Andrade, 18 anos, estudante do curso técnico em Agropecuária no IFS, Campus Glória, cresceu entre o trator, a roça e o drone agrícola. Filho de agricultores, lembra que, por volta dos oito anos, já acompanhava o pai e dirigia o trator no colo dele. A cena de infância não ficou guardada apenas como memória familiar. Com o tempo, virou prática, renda possível e projeto profissional. Hoje, ele trabalha com o pai, que tem quatro tratores, planta sua própria roça há cinco anos e afirma cultivar 24 tarefas, ou cerca de oito hectares. Também se aproximou dos drones agrícolas a partir de um movimento que passava pela própria família: a pousada da mãe recebe empresas de drones durante a safra em Sergipe, e foi nesse contato que ele começou a acompanhar pilotos, aprender com eles e entrar no mesmo circuito de trabalho. “Eu percebi que o que fazia no meu dia a dia, mexendo com trator, com roça, com gado, com drone, tudo isso estava diretamente ligado a profissões. Aquilo movia uma economia intensa de pessoas e comunidades, e ali tinha dinheiro”, conta. Para ele, o campo não aparece como um lugar parado no tempo, mas como uma economia que reúne máquinas, redes sociais, serviços, deslocamentos e novas formas de especialização.

Na operação de um drone agrícola, o imprevisível se mede em segundos. Antônio Emanuel diz que pilotar não é apenas ficar no controle enquanto a máquina voa; exige responsabilidade, atenção contínua e decisão rápida diante de qualquer falha. Se o motor apresenta problema, se a configuração de calda e bateria se desequilibra ou se algum imprevisto ocorre, a resposta precisa vir antes que o equipamento caia. Depois do curso técnico, ele passou a enxergar a produção com outra camada de análise, inclusive quando conversa com produtores sobre perdas, clima e manejo. “Eu vejo os produtores reclamando da chuva ou dizendo que um manejo não funcionou. Mas eu já chego perguntando que adubação ele usou, que manejo ele fez, e entendo: faltou isso, fez demais aquilo”, relata. Essa diferença de olhar também cria tensão com produtores mais antigos, acostumados a repetir o mesmo manejo por uma vida inteira. Antônio Emanuel reconhece o peso da prática acumulada, mas afirma que o conhecimento técnico precisa se encontrar com a vida real do campo. Em sua trajetória, esse encontro já ultrapassou Sergipe: ele viajou para Santa Catarina, onde conheceu culturas como arroz e banana, e para o Paraná, onde observou a dinâmica da soja, do milho e de culturas de inverno. O jovem que começou no colo do pai sobre o trator passou a ler o território também a partir de máquinas, telas, mapas e experiências em outras regiões agrícolas.

O retorno ao sítio

WhatsApp Image 2026 05 11 at 14.10.49A história de Felipe Jorge Santos Ferreira da Costa entra por outra porteira. Aos 38 anos, estudante do primeiro período da graduação em Tecnologia em Agroecologia, ele vive no povoado Rio das Pedras, em Itabaiana, mas sua infância foi no Rio de Janeiro. Sergipe aparecia nas visitas de férias, nas conversas com a avó, no incentivo do avô, nas ideias ainda distantes sobre criação de animais e possibilidades de renda no sítio. Em 2018, por orientação médica durante um quadro de depressão, Felipe deixou a vida urbana e foi morar na propriedade dos pais. A mudança foi o início de uma reorganização da rotina. A mãe sugeriu criar galinhas para consumo próprio, com ovos e carne para casa. Entre 2019 e 2020, a procura dos vizinhos transformou o pequeno criadouro em uma possibilidade de venda. Primeiro veio o boca a boca; depois, o investimento. O que era cuidado doméstico passou a ser produção, e o que era produção passou a pedir estrutura.

Antes da graduação em Agroecologia, Felipe cursou o técnico em Agronegócio no IFS. A disciplina de marketing abriu uma frente que talvez não aparecesse no imaginário mais comum sobre o campo: a criação de uma logomarca, o melhoramento da estrutura da criação de galinhas, a elaboração de um trabalho de conclusão de curso voltado para a própria realidade da família. O conhecimento entrou pelo galinheiro, pelo nome do produto, pela demanda dos vizinhos, pela necessidade de organizar aquilo que já existia. A graduação surgiu como continuidade. Felipe percebeu que poderia adquirir novas técnicas e ampliar o manejo da propriedade, que também passou a contar com frutíferas enxertadas. A trajetória dele mostra que o campo pode ser herança, mas também pode ser retorno; pode nascer de uma família que já plantava roças de subsistência, criava animais e participava de feiras em Itabaiana, mas também pode se tornar projeto quando a formação ajuda a estruturar uma atividade que começou em escala doméstica.

A incerteza, no caso de Felipe, veio com excesso de chuva. Durante vários meses chuvosos, as galinhas começaram a apresentar doenças respiratórias. A primeira resposta da família veio do repertório herdado: limão na água, alho, saberes passados por pais, avós e gerações anteriores. Mesmo assim, houve perda de 30% das aves. Depois do curso, Felipe passou a interpretar outros sinais e a incorporar procedimentos aprendidos com docentes e palestras. Para as formigas que cortavam folhas das plantas e frutíferas, aprendeu o uso de um remédio à base de laranja. Para as aves doentes, relata a aplicação de Terramicina no peito e o resguardo por sete a dez dias. A história de Felipe não coloca o saber antigo de um lado e a técnica de outro. Na propriedade da família, os dois passaram a se encontrar diante de problemas concretos: a ave que adoece depois de meses chuvosos, a formiga que corta as folhas das frutíferas, a decisão entre repetir o que os mais velhos ensinaram e buscar orientação para reduzir perdas. O que antes se resolvia apenas pela herança familiar passou a somar observação, experiência e acompanhamento técnico. Quando a chuva se prolonga, não basta saber que a água é necessária. É preciso entender que a umidade também pode adoecer, favorecer agentes patológicos, alterar o ambiente e exigir uma resposta sanitária. A formação, nesse caso, não começa no laboratório; começa quando alguém olha para o que perdeu e aprende a reduzir a chance de perder de novo. Em outro território, essa mesma passagem entre experiência, perda e aprendizado aparece ligada à permanência na terra e à organização coletiva da produção.

A terra como permanência

Claudineide principalNo Assentamento Emília Maria, em São Cristóvão, a gestão do imprevisível passa também pela permanência em uma terra ainda em reorganização. A chegada de Claudineide Alves Cantídio, 37 anos, ao campo começou por um caminho inesperado. Ela morava no bairro Luiz Alves e trabalhava com uma mercearia quando recebeu um pedido de entrega em uma comunidade que ainda não conhecia. Foi levar um lanche e encontrou, junto com o esposo, Valdemir, um território que mudaria sua vida. Na conversa com um coordenador da época, veio o convite para integrar a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). No dia seguinte, o casal voltou com a resposta. Recebeu um lote, teve prazo para erguer a moradia inicial e, seis meses depois de chegar, Claudineide já assumia a coordenação do grupo onde morava. Mais tarde, foi indicada em eleição interna e passou a atuar como coordenadora de base geral do Emília Maria. A relação com a roça vinha de antes, das idas à propriedade dos avós em Areia Branca, nos fins de semana, feriados e férias. Mas foi no curso Agricultor Orgânico, da primeira turma do Programa Mulheres Mil no assentamento, que ela passou a nomear com mais segurança aquilo que a experiência começava a mostrar: o solo, o manejo, a compostagem, a calda bordalesa, o cuidado com a produção e a prática agroecológica.

A rotina de Claudineide também revela que a gestão do imprevisível não está apenas na chuva que falta ou na praga que aparece. No Emília Maria, a dificuldade começa pelo próprio chão. Ela conta que a área foi, durante muito tempo, marcada pelo cultivo de eucalipto e que o assentamento ainda reorganiza seus espaços produtivos, enquanto as famílias aguardam a definição dos lotes definitivos. Nesse intervalo, cada uma foi plantando o que conseguia e o que desejava ver crescer perto de casa: acerola, maracujá e outras espécies que começaram a ocupar uma terra antes pouco associada à produção de alimentos. O plano é formar um pomar ao redor da casa. Como vice-presidente da cooperativa do assentamento, ela também participa da busca por projetos coletivos, entre eles uma proposta de plantio de cacau associado ao açaí e a outros cultivos. “O solo não é muito bom em algumas áreas, mas quando você se dedica e coloca em prática tudo que aprende, no final tudo dá certo”, aponta Claudineide, ao explicar que a permanência no campo também depende de transformar limite em manejo.

Depois do Mulheres Mil, algumas decisões deixaram de ser tomadas apenas pelo costume. Claudineide passou a organizar melhor a produção, inclusive na criação de galinhas, e conta que a planilha de trabalho a ajudou a reduzir desperdícios na alimentação dos animais. Na roça, aprendeu a alternar cultivos para evitar que fungos e bactérias se proliferem no solo. Onde planta tomate, por exemplo, depois da colheita passa a cultivar pimenta; onde antes repetia práticas vistas na infância, agora tenta entender o efeito de cada escolha. Uma delas veio da memória da avó, que plantava amendoim diretamente na terra. Claudineide não trata a prática antiga como erro, mas afirma que passou a adotar outro cuidado: fazer covas para reduzir o excesso de umidade na raiz, evitar apodrecimento, facilitar a limpeza e favorecer o desenvolvimento da planta. “Mesmo sendo uma adubação agroecológica, se colocada demais e no local errado também pode dar prejuízo”, observa. O curso, segundo ela, também mexeu em outra dimensão da vida no assentamento: a fala, a postura e a confiança para ocupar espaços. Agora, além do Agricultor Orgânico, ela faz curso de tratorista, porque quer arar e cultivar o próprio solo com mais autonomia. Para Claudineide, fortalecer a agricultura familiar passa por aprender a produzir, cuidar da saúde no uso dos equipamentos de proteção e reconhecer que uma mulher pode estar em qualquer função do campo com dedicação ao que faz. Se, no assentamento, o imprevisível aparece no solo, na água e na organização da produção, no manejo animal ele ganha corpo, movimento e reação própria.

O animal fora do cálculo

Victor Emanuel principalEm Nossa Senhora da Glória, Victor Emanoel Aragão Teixeira, 16 anos, estudante do segundo ano de Agropecuária, aprendeu cedo que a imprevisibilidade também tem corpo, peso e movimento. Ele ganhou do avô sua primeira vaca quando tinha um ano de idade; só anos depois, com o rebanho crescendo, começou a ter noção do que aquilo significava. A convivência com o avô nas fazendas atravessou a infância e segue até hoje, em uma rotina de ajuda mútua. Sua família trabalha com animais, e o sonho de seguir Veterinária ou outra profissão ligada ao campo vem, segundo ele, “praticamente” desse convívio. A cena que mais expõe o limite entre técnica e imprevisto aconteceu no curral antigo, feito de pau, durante a vacinação de gado. Quando os vaqueiros laçaram uma novilha, a corda se prendeu ao pau central, bateu nele junto com o animal e o derrubou. Victor machucou as costas e a orelha. O episódio não o afastou do manejo; ao contrário, ele conta que passou a lidar com os animais sem medo, mas com mais atenção à lida.

O aprendizado de Victor é direto, quase todo feito de observação. Antes de uma doença evidente, ele aprendeu a reconhecer pequenas mudanças no comportamento do rebanho. “Às vezes, o animal está em algum canto, triste, com o vazio seco, sem apetite. Também pode estar mancando ou com alguma parte do corpo inchada”, explica Victor. Para quem nunca entrou num curral, esses sinais podem parecer pequenos. Para quem convive com o rebanho, são avisos. O curso acrescentou a esse olhar conteúdos de nutrição, manejo sanitário e uso de ferramentas. Uma mudança concreta ficou marcada: ele usava a mesma seringa em todos os animais; depois das aulas, passou a entender a necessidade de uma seringa para cada animal. A alteração parece simples, mas revela o núcleo da formação técnica: transformar costume em procedimento, percepção em cuidado, prática repetida em decisão fundamentada. No manejo animal, a técnica ajuda a reduzir riscos, mas a convivência diária continua indispensável. O animal não cabe inteiramente no planejamento. Ele reage, escapa, adoece, muda de comportamento, exige leitura. A escola ensina o manejo; o curral ensina que o manejo precisa ser aplicado diante de um ser vivo que nem sempre faz o movimento esperado.

Luiz Gustavo principalLuiz Gustavo, estudante do curso técnico em Agropecuária no Campus São Cristóvão, resume esse aprendizado com uma palavra: adaptabilidade. Para ele, secas prolongadas atrasam o plantio, ondas de calor estressam plantas, animais e pessoas, e o excesso de chuvas pode favorecer doenças e fungos pela umidade elevada. A resposta, diz, está no equilíbrio: manter a umidade correta, hidratar a raiz, manejar o solo, interpretar o clima, escolher culturas de acordo com a época, a resistência e a condição econômica do produtor. Ele relata uma perda em uma pequena área de milho, quando o excesso de chuva deixou a terra encharcada e desfez as formas do plantio. Nas aulas de agroecologia, manejo do solo e olericultura, passou a discutir essas relações de causa e resposta. Luiz Gustavo também cita o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, conhecido como ZARC, como ferramenta para ajustar o calendário e reduzir perdas. A política pública orienta janelas de plantio conforme solo, clima e cultura, com o objetivo de diminuir o risco climático na agricultura. Ele lembra ainda que, em algumas propriedades, é possível substituir o milho pelo sorgo, mais resistente à seca.

Ciência para conviver

Márcio Trindade, docente da área técnica, organiza em linguagem científica aquilo que aparece fragmentado nas histórias dos estudantes. Para ele, o desafio não é “combater” seca ou chuva, mas construir alternativas de convivência com os extremos. Em períodos de estiagem prolongada, a água se torna o centro da produção vegetal e animal; em períodos de chuva excessiva, o problema passa a ser proteger plantas, animais e solo dos efeitos da umidade. Uma das estratégias centrais, explica, é o armazenamento: água para atravessar o período seco, comida para humanos e animais, grãos para alimentação, feno e silagem para o rebanho. A decisão produtiva também envolve trabalhar com variedades adaptadas ao ambiente, culturas de ciclo menor e animais mais adequados às condições de cada região. Se há água no subsolo e possibilidade de irrigação, o produtor ganha outro horizonte; se não há, precisa ajustar cultura, calendário e expectativa. Essa explicação devolve ao campo sua complexidade. Não se trata de plantar ou não plantar. Trata-se de medir risco, escolher uma janela, conhecer o solo, observar a água disponível, antecipar alimento, entender a espécie cultivada, calcular custo e aceitar que a natureza tem uma participação que nenhum projeto elimina.

Marcio Trindade principalA umidade que Felipe viu adoecer galinhas e que Luiz associa a fungos nas plantas encontra, na fala de Márcio, uma explicação mais ampla. Nos períodos secos, a probabilidade de algumas pragas e doenças tende a ser menor; nos períodos chuvosos, a umidade relativa do ar favorece o desenvolvimento de fungos e bactérias, tanto no ambiente quanto no solo, e aumenta a ocorrência de parasitas internos e externos nos animais. Quando o clima oscila demais, a resposta precisa ser igualmente cuidadosa. O docente também chama atenção para o uso de pesticidas e defensivos, sobretudo pela dosagem, pelo respeito ao período de carência e pelo risco ambiental quando produtos não seletivos atingem insetos que poderiam participar da polinização. A substituição por produtos naturais, quando possível e tecnicamente adequada, aparece como caminho para reduzir o uso de químicos. Em sua avaliação, a agricultura familiar e a agricultura empresarial enfrentam necessidades semelhantes diante do clima; o que muda é a dimensão das estratégias, a escala da estrutura e a capacidade de investimento. O produtor familiar também precisa de lucro, redução de custos e aumento de produção, mas nem sempre dispõe dos mesmos recursos para alcançar esses objetivos.

Hazael Soranzo de Almeida, coordenador, situa essa formação no território. Segundo ele, os docentes procuram instigar os estudantes a compreender a realidade de cada região e a buscar formas de minimizar impactos climáticos de acordo com cada caso. Onde falta chuva, é preciso pensar em ações de convivência; onde chove muito em uma época concentrada, é preciso estudar formas de segurar água por meio de barragens e manejos que permitam atravessar os meses secos. Para Hazael, não existe receita de bolo: é preciso entender o que está acontecendo, quais são as condições do produtor e quais objetivos ele tem. Essa percepção aparece quando ele fala dos custos. Não faz sentido propor a um pequeno produtor uma barragem e um sistema de irrigação de valor incompatível com sua realidade. A decisão técnica precisa caber no bolso, na propriedade e na finalidade da produção. Ele também afirma que a formação deve considerar autonomia e soberania alimentar: primeiro, que o produtor consiga se alimentar e alimentar a família; depois, que possa vender excedentes e gerar renda. O estudante, portanto, é formado para pensar produção, mas também para pensar viabilidade, permanência e território.

O conhecimento que fica

As histórias do campo poderiam terminar na técnica, mas ficariam incompletas se não retornassem ao sal sobre a telha. A experiência de Santa Luzia, na voz de Antônio, não aparece como oposição à ciência. Ela é uma das muitas formas pelas quais trabalhadores rurais tentaram, ao longo do tempo, reduzir a distância entre desejo e previsão. O movimento das formigas, a floração do mandacaru, a umidade do sal, o calendário do banco, a semente de ciclo curto, a análise do solo, o antibiótico aplicado na ave, a seringa trocada entre um animal e outro, o armazenamento de silagem, a escolha do sorgo, a preservação do milho crioulo, o lote em formação: tudo isso pertence a uma mesma busca por decisão em ambiente instável. O IFS entra nesse percurso quando organiza, amplia e testa saberes que já circulavam nas propriedades, nos currais, nas feiras, nas conversas com avós, pais, mães, tios e vizinhos. A formação técnica não promete controle total. Ela oferece critérios para errar menos, interpretar melhor e compreender por que uma prática funciona em um lugar e fracassa em outro.

Antônio diz que o escritório de quem trabalha na agropecuária é o campo. Nesse escritório, há sol, chuva, neblina, noite, animais, pragas, mercado, crédito, máquina, solo, fé e cálculo. Vencer a incerteza nunca foi uma promessa desse trabalho; o que se aprende, safra após safra, é agir dentro dela. Plantar agora ou esperar, escolher ciclo curto ou ciclo longo, insistir no milho ou testar outra cultura, aplicar um produto ou buscar alternativa natural, vender a produção ou guardar semente, ampliar o plantel ou proteger o que já existe: cada decisão nasce do encontro entre experiência, observação e conhecimento. A formação técnica não retira da chuva o poder de faltar, nem impede que o animal se mova fora do previsto. Mas pode transformar a espera em observação, a perda em análise, a tradição em método e a experiência em decisão. Na telha de Santa Luzia, algumas pedras de sal amanhecem úmidas e outras permanecem inteiras. Entre uma e outra, há um ano inteiro por interpretar.

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