Julho das Pretas reivindica a força e os direitos das mulheres negras
Programação do Campus Estância usa cultura e literatura para refletir sobre temas como liderança e representatividade
Por Carole Ferreira da Cruz
O Instituto Federal de Sergipe (IFS) - Campus Estância dedicou uma semana de atividades ao Julho das Pretas, uma ação coletiva para celebrar e reivindicar a visibilidade, a força e os direitos das mulheres negras da América Latina e Caribe. As comemorações foram inspiradas no 25 de julho: Dia Nacional de Tereza de Benguela, o maior símbolo de resistência e liderança negra feminina no Brasil, e o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.
A data simboliza a resistência, a força e a luta histórica contra o racismo, o machismo e a desigualdade. Para conscientizar e engajar a comunidade acadêmica, a programação contou com muita arte, cultura e literatura para refletir sobre temas como resistência, liderança e representatividade, além de dar visibilidade às mulheres negras que dão uma contribuição inestimável à educação e à transformação da sociedade.
O Julho das Pretas iniciou com o Etno Cine ao exibir o filme “A mulher rei”, dirigido por Gina Prince-Bythewood e estrelado por Viola Davis. A obra acompanha a general Nanisca e as Agojie, um formidável exército de guerreiras composto exclusivamente por mulheres que protegiam o Reino do Daomé (atual Benim) nos anos 1800. Inspirado em eventos reais, o filme mostra Nanisca treinando uma nova geração de recrutas para defender o reinado de inimigos determinados a destruir seu modo de vida.
O Clube do Livro “Literatura Negra” promoveu uma conversa instigante sobre a força e a representatividade das autoras e personagens negras, sob a condução da professora do curso de Licenciatura em Letras, Emille Mattos. O momento “Mulheres negras que inspiram” partilhou as potentes trajetórias das professoras do IFS, Eline Almeida, e da professora convidada da Uninassau e do Senai, Liza Evellyn da Conceição Santos.
Para Eline, o Julho das Pretas constitui uma agenda política de mobilização das mulheres negras em torno de suas demandas enquanto grupo social numa sociedade marcada pelo racismo estrutural. “A iniciativa fortalece a construção de uma identidade positiva entre os estudantes, amplia a compreensão sobre o papel histórico das mulheres negras como lideranças e agentes de transformação social e incentiva a valorização de referências locais, a começar pelo próprio espaço familiar e comunitário”, destacou.
Liza Evellyn pontuou que refletir sobre a falta de referências pretas contribui para enxergar pessoas semelhantes em lugares de destaque e desafiá-las a ocupar esses espaços. “Compartilhar nossas histórias foi também revisitar as dificuldades que muitas pessoas negras enfrentam desde a escola até o mercado de trabalho, onde o racismo ainda insiste em limitar sonhos e oportunidades. Ao mesmo tempo, falamos da educação como uma ferramenta que amplia horizontes e nos ajuda a construir caminhos que antes pareciam impossíveis”, ressaltou.
Liderança e resistência
O debate ajudou no entendimento das relações étnico-raciais para o enfrentamento do racismo e das diferentes formas de violência. “É muito importante valorizar o legado das mulheres pretas que vieram antes de nós, justamente por terem aberto as portas para muitas outras terem acesso aos direitos que temos hoje. Nomes como Dandara, Carolina de Jesus e Firmina dos Reis tiveram um papel de extrema relevância para o crescimento do mundo, fazendo com que as mulheres pudessem ter seus direitos garantidos e lutar por aqueles que ainda não têm”, afirmou o estudante de Eletrotécnica, Arthur Rosa Rodrigues, 15 anos.
Lara Beatriz Bomfim dos Santos, 17 anos, do curso de Programação de Jogos Digitais, considerou estratégico usar a cultura e a arte para representar a liderança e a resistência das mulheres negras. “São formas de se expressar, de aproximar os jovens com mais conforto da história, de sentir e ver a importância da mulher negra na sociedade. A presença desse evento em nosso instituto é muito importante, pois os jovens estão em fase de aprendizado e trazem consigo ações, falas e preconceitos dispostos na sociedade”, enfatizou.
A roda de conversa com o escritor estanciano Rogério Santos encerrou a programação do Julho das Pretas ao compartilhar vivências, inspirações e o processo criativo em torno do seu livro “Aná das Curimã". O bate-papo foi enriquecido com a entusiasmada participação dos estudantes do novo curso de Licenciatura em Letras do Campus Estância. A ação coletiva foi coordenada pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi), com o apoio do Núcleo de Cultura, Arte e Lazer (NUCAL).
Segundo a coordenadora do Neabi, Ingrid Fabiana de Jesus Silva, as atividades cumpriram o objetivo e superaram as expectativas. “Proporcionamos à nossa comunidade momentos imprescindíveis de conscientização sobre as políticas de inclusão da mulher negra; de fortalecimento da autoestima e de reconhecimento de direitos; refletimos sobre a questão da equidade, da reparação e do combate ao racismo e sexismo; e destacamos a pauta da identidade, da representatividade e da importância das mulheres na sociedade”, avaliou.
Sobre Tereza de Benguela
O dia 25 de julho simboliza a resistência, a força e a luta histórica contra o racismo, o machismo e a desigualdade. A escolha da data no Brasil homenageia a rainha Tereza de Benguela, líder quilombola que viveu no século XVIII no atual estado do Mato Grosso e assumiu o comando do Quilombo do Quariterê após a morte do marido. Sob sua liderança, a comunidade resistiu bravamente à escravidão por duas décadas e destacou-se por organizar uma estrutura política, econômica e administrativa formidável de autossustento e defesa
A oficialização do 25 de julho como Dia Nacional da Mulher Negra no Brasil foi instituída pela Lei n° 12.987/2014, enquanto a celebração internacional é reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) desde 1992. A data serve como um importante marco político para debater a realidade, a violência, a representatividade e os direitos das mulheres negras na América Latina e Caribe.


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