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Missão social

Projeto que levou cinema para comunidade de Glória dará origem a curta-metragem

Escrito por ANA CARLA ROCHA DE SOUZA CRUZ | Criado: Quarta, 30 de Maio de 2018, 11h51

debateIniciativa de cultura e arte é exemplo do compromisso social do IFS com uma educação que vai além da transmissão de conteúdos programáticos

Antes das 19h, dona Zolaide já estava em pé, na entrada da Associação de Pequenos Produtores Rurais de Tanque de Pedra, aguardando ansiosamente pela chegada da equipe.  “Viram que eu cheguei antes de vocês? ”, disse a anfitriã, com um sorriso largo no rosto.  No dia anterior, foi ela quem cuidou da divulgação, distribuindo os panfletos que convidavam a comunidade para uma sessão especial de cinema. O povoado, distante cerca de 8 km da cidade de Nossa Senhora da Glória, em Sergipe, recebeu o projeto de extensão "Cinema Cartográfico: regionalização e territorialização no sertão".  A iniciativa, que propõe uma imersão cultural, estética e artística através do cinema, prevê a exibição de seis filmes em diferentes comunidades do entorno de Glória e terá, como produto final, um curta-metragem que vai contar um pouco dessa experiência a partir do olhar de personagens escolhidos durante as sessões.

despedidaPara os moradores do Tanque de Pedra, a produção escolhida foi o documentário Vou rifar meu coração, um longa que faz uma viagem pelo imaginário romântico brasileiro a partir da música brega, trazendo depoimentos de cantores consagrados e relatos da vida amorosa de pessoas comuns, inclusive com cenas gravadas em Glória e Monte Alegre, em Sergipe. Aos poucos, a sala de cinema improvisada na sede da associação foi sendo ocupada por gente de toda idade e a sessão, que a princípio parecia não ter despertado o interesse dos sertanejos, completou sua lotação máxima. Vinham de dois em dois, grupinhos e famílias, cruzando a praça, cada um com sua cadeira.  Entravam timidamente e iam se acomodando. Até um grupo de rapazes que se divertia numa competição de sinuca num bar ao lado não resistiu aos flashes e sons que vinham lá de dentro: começaram se espreitando pela porta e, em pouco tempo, estavam lá, sentados com os olhos fixos na tela. Dentro do espaço escuro, o silêncio reinava absoluto - a atenção dos espectadores admiração e até a preocupação da equipe que coordenava a exibição: “será que que eles estavam gostando?”, perguntaram-se.

A resposta foi revelada segundos após as luzes se acenderem, quando foi possível ver a expressão dos quase 50 espectadores que estavam ali. Dona Zolaide iniciou os comentários: “Eu gostei!”, disse assim que a pedagoga Jéssica concluiu seu agradecimento à comunidade. “Porque escolheram esse filme? Vocês acham que a gente é romântico?”, disparou o espectador Anderson, sendo respondido imediatamente pela esposa. “Você é sim! Estava assistindo lá na frente e depois veio para o meu lado para ficar de mãos dadas”. Anderson confirmou aos risos. Pouco a pouco as opiniões iam sendo compartilhadas e a comunidade ia interagindo e revelando suas impressões sobre o filme.  

“Ver aquelas pessoas tomarem a exibição como um compromisso, conseguir que elas se afastassem por 2 horas da TV Globo, reuni-las em frente a uma tela, em cadeiras desconfortáveis, para assistir a um filme brasileiro de pouca circulação comercial e ainda ouvir elogios, não tem preço!”, comentou Jéssica, idealizadora do projeto. Para ela, poder oferecer mais do que educação formal através de uma experiência cultural e estética para a comunidade é algo muito gratificante. “Quando se trata de cinema e escola, não devemos restringir somente à função didática do filme, mas difundir a ideia de experiência por deleite, por prazer, e não obrigação. Poder unir o cinema e a comunidade foi muito emocionante e ver que o projeto saiu do papel e tomou corpo e voz é inexplicável” conclui Jéssica, que também é pedagoga.

Pesquisa

Público chegandoApós as discussões foi aplicado um questionário com o qual foi possível comprovar o que a pedagoga já suspeitava: algumas pessoas nunca tinham ido a uma sala de cinema, realidade igual a de 15 entre 37 alunos de duas turmas do Campus Glória, segundo levantamento feito antes da elaboração do projeto. Essa constatação traz um significado ainda mais especial à iniciativa, pois está possibilitando para muitos vivenciar o cinema pela primeira vez, não só como um ato contemplativo, mas também como uma ação de feitura, já que eles também serão personagens do curta que será produzido.

Rafael Maurício, assistente administrativo e coautor do projeto, conta que foi muito interessante ver a adesão e identificação do público com o filme exibido. “Me chamou a atenção um comentário de que as pessoas não participariam por causa da novela, o que demonstra que a gente, às vezes, cria uma percepção equivocada de que as pessoas só gostam de um tipo de conteúdo, quando, na verdade, nós percebemos que é muito mais uma questão de acesso”, observou Rafael, que também é estudante de cinema. Para ele, o projeto é uma forma de levar o nome do Instituto Federal de Sergipe (IFS) para as comunidades, possibilitando o contato com diferentes realidades e mostrando que a educação não tem um direcionamento único.  

Ao final das discussões, quando muitos já tinham ido embora, dona Zolaide vem se despedir da equipe e, em tom saudoso pergunta: “E agora, quando é que vocês voltam?”

Reportagem publicada originalmente na edição de maio do jornal A Prévia

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