Essa pagina depende do javascript para abrir, favor habilitar o javascript do seu browser!
Ir direto para menu de acessibilidade.
Página inicial > Últimas Notícias > Destaque > Rotinas intensas de estudantes revelam como informação, acolhimento e vínculo sustentam a permanência
Início do conteúdo da página
continuidade

Rotinas intensas de estudantes revelam como informação, acolhimento e vínculo sustentam a permanência

Escrito por GERALDO BULHOES BITTENCOURT FILHO | Publicado: Segunda, 09 de Março de 2026, 12h05

SofiaHistórias de cuidado, deslocamento e organização mostram como o campus se integra ao mapa diário da formação

Há estudantes para quem o dia não começa no primeiro horário da aula, nem termina quando o portão do campus se fecha. Ele já vinha acontecendo antes, num café apressado, numa criança que precisa de atenção, numa avó que espera conversa, num ônibus que ainda não chegou, num caderno aberto de madrugada para que o estudo caiba em algum intervalo possível. No Instituto Federal de Sergipe (IFS), esse cotidiano aparece em perfis distintos, espalhados entre os dez campi da instituição, mas com um traço em comum: a permanência estudantil ganha forma no tempo reorganizado, nos espaços de estudo, no acompanhamento pedagógico, nos canais de orientação e na presença de uma instituição que, para muitos, deixa de ser apenas o lugar da aula e passa a integrar o mapa inteiro do dia. As entrevistas reunidas para esta reportagem mostram que “não folgar” não significa apenas ter uma agenda cheia. Significa aprender a sustentar o vínculo com a formação em dias vividos no limite e, nesse processo, encontrar no IFS um eixo de previsibilidade, escuta e continuidade.

É nesse mapa apertado do tempo que aparece Sofia Leite Santos, de 17 anos, estudante do curso de Sistemas de Energias Renováveis no Campus Socorro, para quem o relógio do estudo também passa pelo deslocamento. A distância entre sua casa e o campus é de 11 quilômetros, mas o que seria um percurso breve se alonga pela lógica do transporte: a ida depende de carona familiar, a volta exige integração entre ônibus, espera em terminal e um tempo que escorre antes de ela finalmente chegar em casa. Sofia conta que sai do IFS às 12h40 e, em muitos dias, só chega por volta das 16h, com uma faixa inteira da tarde consumida por conexões e espera. Para proteger o estudo, deslocou o esforço para o início da manhã e passou a acordar entre 3h30 e 4h30. “É preciso ter criatividade para administrar o tempo onde for possível, seja no ponto ou no trajeto”, afirma. Houve tarefa feita sob tensão, no ônibus quebrado e superlotado, e houve também a aprendizagem prática de que organizar o dia é, antes de tudo, reconhecer prioridades. Ao falar disso, Sofia afasta qualquer ideia de heroísmo e revela um método que é construído na prática. O campus entra nessa equação como lugar onde a biblioteca ajuda a recuperar parte do tempo, e a própria estudante resume a lógica que foi construindo: “Planeje todo o seu dia e saiba o que é prioritário e o que não é”.

HortenciaEm Lagarto, a rotina de Hortência Andrade Leal, de 23 anos, estudante de Arquitetura e Urbanismo e moradora de Simão Dias, dá outra forma a esse mesmo desenho. São cerca de 30 quilômetros até o campus e um percurso de 40 a 45 minutos, repetido de manhã cedo e ao fim da tarde, com a compreensão de que, entre uma ponta e outra, o dia inteiro será vivido dentro da instituição. Hortência chega por volta das 7h30, toma café no campus porque não há tempo para isso em casa e atravessa a jornada entre aulas, projetos e pendências resolvidas na biblioteca, nas salas da coordenadoria do curso e, quando possível, nos intervalos em que tenta não acumular o que depois pesaria mais. Ela diz que ainda está aprendendo a organizar o tempo com exatidão, mas já transformou o trajeto em espaço de leitura, escrita, descanso ou oração, conforme o peso do dia exige. “Quando estou muito atarefada, uso o tempo para estudar; quando não, descanso um pouco ou aproveito para rezar”, relata. Há, em sua fala, um ponto de maturidade que amplia o alcance desta reportagem: a orientação para que quem chega não se compare com quem parece ter tudo sob controle, porque muita gente ainda está aprendendo a encontrar ritmo, a lidar com a procrastinação e a testar o que de fato funciona no cotidiano. “É importante ir testando o que funciona para você, sem se cobrar tanto pela ‘perfeição’ do outro. Se for necessário, estude no ponto, estude no ônibus, e vá se ajustando até encontrar o que flui para você”, aconselha Hortência, para quem a permanência também se constrói como habilidade desenvolvida em diálogo com os espaços, os tempos e a experiência estudantil.

FrancoNo plano institucional, rotinas como as de Sofia e Hortência mostram uma realidade que o campus conhece de perto: estudantes que precisam reorganizar a rotina constantemente para dar conta do curso e das responsabilidades fora da sala de aula. José Franco de Azevedo, diretor-geral do Campus Socorro, afirma que, quando a rotina aperta, a orientação é ajudar o estudante a planejar melhor as atividades, definir prioridades e encontrar formas possíveis de manter o acompanhamento do curso sem se afastar da trajetória acadêmica. A proposta é oferecer apoio para que o percurso continue viável mesmo em dias marcados por deslocamento, cansaço e acúmulo de tarefas, sem impor ao estudante uma ideia idealizada de desempenho. “O estudante não precisa enfrentar as dificuldades sozinho”, afirma. Nessa perspectiva, a permanência também se fortalece quando o campus se apresenta como espaço de escuta, orientação e apoio para seguir.

O campus no mapa do dia

TatianaSe o deslocamento reorganiza o estudo, o cuidado reorganiza tudo. Tatiana Pinheiro de Figueiredo Souza, de 36 anos, estudante de Tecnologia de Alimentos no Campus São Cristóvão, define com precisão o ponto em que a rotina doméstica e a vida acadêmica se tocam: o cuidado não surge em um horário específico, ele acontece o dia inteiro. Mãe solo de três filhos, Tatiana convive com uma rotina em que a atenção dedicada ao caçula, Rafael, de 8 anos, atravessa toda a organização da casa e dos estudos. O menino é autista nível 3 de suporte, não verbal, e, segundo a estudante, demanda acompanhamento constante e específico por causa de suas limitações e das crises. “Esse cuidado não tem um momento específico; acontece integralmente, pois o Rafael não para”, conta. Para conseguir estudar, Tatiana relata que precisa estar fisicamente dentro do IFS, aproveitando o tempo que consegue permanecer na biblioteca, espaço que se tornou central na tentativa de concentrar leitura, tarefa e respiro em meio às demandas contínuas de casa.

De acordo com Tatiana, a biblioteca se torna um lugar concreto de recomposição do tempo. Ao lembrar os dias em que precisou conciliar os cuidados com os filhos e as exigências do curso, ela conta que muitas vezes tentou estudar de madrugada, embora o cansaço nem sempre permitisse. “Para conseguir organizar minimamente os estudos, preciso estar fisicamente dentro do IFS”, diz. Tatiana buscou orientação junto a psicólogos e assistentes sociais do campus e descreve o amparo recebido como marcante. “O acolhimento no IFS é maravilhoso e tenho professores que pretendo levar para o resto da vida”, afirma. O que mais impressiona, no entanto, é a sobriedade com que ela segue olhando para a frente. Ao falar do diploma, Tatiana não encena certeza imediata; diz que a formatura vai chegar, ainda que não seja agora, e sustenta a permanência na ideia simples de continuidade. “As dificuldades de hoje serão a vitória de amanhã”, resume.

FelipeNo Campus Socorro, Felipe Gabriel da Cunha Dias Santos, de 17 anos, estudante do curso técnico em Energia Renovável, mostra outra face desse mesmo tempo cheio. Seu dia começa cedo, com a água do café sendo aquecida antes da escola e a mesa dividida com a avó, de 66 anos, que precisa de atenção mais constante com o avanço da idade. Depois da aula, o retorno para casa recoloca o cuidado no centro: almoço, conversa na sala, a rotina da tarde, a sobrinha pequena que também demanda presença, e só então as atividades escolares, reorganizadas longe do celular e mais próximas do computador, da pesquisa e do esforço para manter algum foco. Felipe descreve estratégias simples e muito concretas, como avisar à avó quando não poderá voltar cedo e tirar tempo antes de dormir quando o dia se embaralha. “Quando tudo vira uma bagunça, o jeito é sempre tirar um tempo antes de dormir”, conta.

A passagem mais reveladora da trajetória de Felipe vem quando ele conta que o campus percebeu sua ausência antes mesmo de ele pedir ajuda: ao notar o aumento das faltas, servidores e direção o procuraram para entender o que estava acontecendo. “Ao contrário de várias escolas que às vezes nem sentem falta, o IFS chegou até mim e entendeu minha situação”, afirma. Nessa pequena cena, a permanência ganha uma forma institucional muito nítida. Mais do que indicar onde pedir ajuda, essa cena revela uma cultura de acompanhamento em que a escola reconhece o estudante como presença singular, e não só como número de matrícula.

DeivssonEssa rede de apoio ganha contornos mais nítidos quando aparece do lado institucional. Deivesson de Sousa Lima, técnico em Secretariado e diretor substituto eventual da Diretoria de Assuntos Estudantis (DIAE), afirma que, nos campi do IFS, o estudante encontra orientação em diferentes pontos do percurso acadêmico, desde os setores ligados ao registro escolar até as coordenadorias de assuntos estudantis, assessorias pedagógicas e núcleos de atendimento às pessoas com necessidades específicas. A esse conjunto se somam o suporte psicossocial, o acompanhamento psicopedagógico e, em situações que exigem atuação mais ampla, encaminhamentos para redes públicas externas. Ao falar das rotinas mais apertadas, Deivesson observa que muitas das demandas surgem justamente da tentativa de conciliar estudo, trabalho, responsabilidades familiares e deslocamentos diários. “Cuidar da saúde, organizar o tempo de estudo e reconhecer que pedir ajuda faz parte do processo de formação são atitudes importantes para manter o equilíbrio ao longo da trajetória acadêmica”, resume.

No Campus Socorro, o diretor-geral José Franco de Azevedo acrescenta que esse acompanhamento nem sempre começa em um setor específico, mas pode nascer no contato mais direto com a vida cotidiana do campus. Segundo ele, qualquer servidor pode ser o primeiro ponto de escuta e acolhimento, encaminhando o estudante conforme a necessidade apresentada, sem que ele precise conhecer sozinho os caminhos institucionais. Franco também cita o grupo “Aprender a Aprender”, realizado no início de cada semestre pelo psicólogo e pelo pedagogo da unidade, como um espaço voltado à organização da rotina e à construção de estratégias de estudo. “Entre os conteúdos trabalhados, destaca-se a organização da rotina e do tempo de estudo”, afirma. Na prática, a permanência também se sustenta nessa possibilidade de encontrar, no próprio campus, orientação para reorganizar o dia e seguir.

Os dados públicos ajudam a dar escala a esse cotidiano. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou, com base no Censo 2022, que cerca de 4 milhões de estudantes brasileiros se deslocam para outro município para estudar, o equivalente a 7,2% do total. No ensino médio, essa proporção é de 6,6%; na graduação, chega a 27,3%. Em outra frente, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do próprio IBGE registrou que, em 2022, 85,4% das pessoas de 14 anos ou mais realizaram afazeres domésticos, e 29,3% exerceram diretamente o cuidado de pessoas. Os números mostram que, para uma parcela expressiva da população, estudar envolve conciliar a formação com deslocamentos, tarefas da casa e responsabilidades de cuidado que também organizam o dia.

Ao lado desse esforço cotidiano, a permanência também depende de políticas que ajudem a dar sustentação concreta à vida acadêmica. No IFS, o Programa de Acompanhamento e Assistência ao Educando, o PRAAE, reúne ações, serviços, auxílios e bolsas destinados a estudantes regularmente matriculados, e parte desses benefícios é voltada justamente a quem se encontra em situação de vulnerabilidade, mediante análise socioeconômica do assistente social dos campi. É nesse conjunto que entram, por exemplo, o Auxílio Permanência Estudantil e o Auxílio Residência, pensado para estudantes que precisam morar perto da unidade para seguir no curso. Já o Pé-de-Meia, do Ministério da Educação (MEC), oferece incentivo financeiro educacional a estudantes do ensino médio público inscritos no CadÚnico, com foco na permanência e na conclusão escolar. Mais do que medidas administrativas, esses programas ajudam a transformar apoio em condição real de continuidade, sobretudo quando o estudante precisa conciliar formação, deslocamentos longos, cuidado familiar e uma rotina que quase nunca folga.

Continuidade e pertencimento

Há também quem descreva a permanência menos pelo esforço de segurar o dia e mais pela ampliação do que o campus passa a significar. Esther Araújo Arruda, de 16 anos, estudante do curso técnico integrado em Sistemas de Energias Renováveis no Campus Socorro, conta que o IFS deixou de ser apenas um lugar para assistir aulas quando surgiram projetos, conversas com docentes fora do horário regular e oportunidades de construir algo além da sala. “Aos poucos, o instituto deixou de ser apenas um lugar para assistir aulas e se tornou um espaço onde eu conseguia construir minha carreira acadêmica”, afirma. A rotina, então, se reconfigurou: manhã dedicada às aulas, tarde ocupada por reuniões, eventos, organização de materiais e demandas de projetos, noite reservada à revisão de conteúdos, relatórios e planejamento do dia seguinte.

EstherEsther conta que passou a usar agenda, organizar arquivos em plataformas digitais e dividir tarefas em quadros semanais, mas a principal mudança aconteceu na forma de se relacionar com a vida estudantil. Ela diz que antes estudava para alcançar notas; hoje, estuda para aplicar e repassar o conhecimento, e essa alteração de horizonte tem peso decisivo na construção do pertencimento. “Antes, eu era uma aluna nota dez focada em provas, mas hoje estudo para adquirir conhecimento e aplicá-lo em outras áreas”, resume. Quando afirma que se sente protagonista da própria história, especialmente como mulher no meio científico, Esther revela uma forma de permanência que ultrapassa o comparecimento às aulas e alcança a construção de projeto acadêmico e futuro profissional.

José Franco chama atenção para esse mesmo ponto ao explicar que projetos de ensino, pesquisa e extensão, visitas técnicas, práticas profissionais integradas e ações voltadas ao pertencimento institucional fortalecem a identificação do estudante com o curso e com a instituição, articulando teoria, prática e sentido social da formação. Em outras palavras, permanecer também é reconhecer por que se quer continuar. O campus, nesse caso, deixa de ser um lugar de passagem entre uma aula e outra e passa a operar como espaço de convivência, produção, orientação e perspectiva. A fala de Esther e a explicação institucional se encontram justamente aí: no momento em que o estudante percebe que está construindo algo que não termina no horário do turno, mas se prolonga em pesquisa, em eventos, em responsabilidades compartilhadas e no aprendizado de lidar com prazos, trabalho coletivo e iniciativa. Num cenário em que muitos estudantes organizam o dia entre ônibus, cuidado familiar, trabalho doméstico e estudo, essa ampliação de sentido não é detalhe: é parte do que sustenta a continuidade.

No fim, a permanência ultrapassa o que uma planilha de frequência ou uma definição administrativa consegue registrar. Ela aparece quando uma estudante aprende a acordar no escuro para defender uma tarde de estudos, quando outra transforma o trajeto em leitura e o campus em lugar onde passa o dia inteiro, quando um aluno volta da aula para almoçar com a avó e encontra na escola um gesto de atenção antes mesmo de pedir ajuda, quando uma mãe procura a biblioteca para reunir, em algumas horas possíveis, o que o restante do dia dispersa, e quando uma adolescente entende que o instituto também pode ser o começo de uma carreira acadêmica. Entre a sala e o caminho, entre a casa e o campus, entre a rotina apertada e o projeto de futuro, o que essas histórias mostram é que permanecer não é ficar parado. É seguir, com apoio, informação, vínculo e trabalho cotidiano, até que o percurso faça sentido dentro e fora da aula.

registrado em: ,
Fim do conteúdo da página