Poesia nossa de todo dia
A celebração dos poetas-servidores do IFS no Dia Mundial do gênero literário
*Por Anderson Ribeiro
‘Na minha bicicleta de cor amarela eu pedalava liberdade’. Esse pode ser apenas um título ou a própria poesia se assim eu entender que seja. Sim, porque para sê-la, não há a necessidade de ter um texto mais longo e até mesmo um título. Porque a poesia se lê com os olhos da alma; a poesia está nas coisas do sentir e tamanho não é necessariamente documento; mas, como se dizer, sim.
Começo esta reportagem especial em alusão ao Dia Mundial da Poesia, celebrado neste 21 de março, em primeira pessoa. Coloco-me aqui como repórter-personagem, por ser um dos servidores-poetas do Instituto Federal de Sergipe (IFS), com dois e-books do gênero, publicados pela Editora do IFS (EDIFS): ‘Poemas Feitos de Horizontes’ e ’30 Poemas dos Tempos Sombrios e Outros Poemas’, ambos de 2023 e administra o perfil @depoemetos no Instagram (links para os livros no fim da reportagem).
Mas afinal o que é essa tal poesia?

Não há uma resposta exata para definir a poesia. Cada pessoa dá para ela a sua própria dimensão. A professora de Língua Portuguesa do Campus Aracaju, Elza Ferreira, diz que gosta de uma das definições que Oswald de Andrade deu, que é “aprendi com meu filho de 10 anos que poesia é o descobrimento das coisas que nunca vira antes”. “A poesia nos diz coisas desapercebidas, estranhas. Eu busco a poesia achando que ela fala do mundo, mas ela sempre acaba falando de mim”, definiu Elza.
Já o poeta e coordenador do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas (Napne) do campus Estância, Deivesson Lima, que pretende lançar seu livro de nome provisório, ‘Mente barulhenta: olhos que inspiram poesias’, diz que pra ele “a poesia nasce da linguagem e da necessidade humana de expressar aquilo que muitas vezes não cabe na fala cotidiana. Desde cedo fui inclinado à arte. Estudante, sempre gostei de ler e escrever, mas me vi poeta aos 12 anos, quando escrevi meu primeiro poema. Desde então, a poesia passou a ser uma forma de compreender o mundo, as pessoas e a mim mesmo”, explicou.
Para o poeta e revisor de textos da Assessoria de Comunicação Social e Eventos (Ascom) do Campus Lagarto, César de Oliveira, que está com livro intitulado ‘Lençóis Freáticos’ a ser lançado ainda este ano pela Editora Patuá, de São Paulo, diz que “a poesia é um grande exercício de liberdade pela linguagem. O poeta cria uma gramática própria, plástica e múltipla, que pode subverter a sintaxe e a semântica convencionais. Poesia é também um exercício de utopia - um passo em direção ao que não se alcança”, destacou.
Lya Salem, nome artístico da psicóloga do campus Aracaju, Karen Gomes, que está prestes a lançar seu primeiro livro ‘Espinhos e Rosas: poesias e prosas’, em parceria com a técnica em Assuntos Educacionais também do Campus Aracaju, Silene Santana, diz que “a poesia, assim como toda forma de arte, resgata o que há de humano, sensível e vivo em nós. Tudo o que há de pureza e também de ímpeto e revolta, indignação com o que não está certo. Nos faz mergulhar em nós mesmos e mesmas e retornar melhores, mais leves, vendo e sentindo mais limpo a vida e suas nuances. Nos faz ver e conhecer aspectos de nós e do mundo que desconhecíamos. Nos vira ao avesso para mostrar que não há lado certo ou único, que sempre pode haver uma perspectiva distinta”, salientou e continuou. “A poesia na minha vida é algo que simplesmente acontece. Não depende e nem começa em mim, apenas me ultrapassa, passa por mim e segue. Eu apenas entrego ao mundo. Arte é caminho pra respirar e se libertar. Para transgredir e transformar”, concluiu.
E para Vitor Vilas Bôas, poeta e coordenador da Assistência Estudantil do campus Propriá, que administra a página no Instagram ‘Diálogos Vitruviano’ (@vitruvianos), revela que “a poesia é o modo que podemos comunicar ao mundo a forma particular que nós o enxergamos, independentemente de qual seja o tema. É transformar os nossos sentidos em palavras, transcrever no papel tudo aquilo que percebemos do mundo. É, às vezes, descrever um turbilhão de sentimentos que surgem a partir de uma única imagem. Outras vezes é resumir toda uma vida através de palavras cuidadosamente escolhidas que tragam um significado único para nós e que entendemos que o mundo é capaz de sentir junto o que sentimos, enxergar as cores que vimos, embebedar-se no mesmo gosto que bebemos, inebriar-se no aroma que nos entorpecemos”, poetizou.
Então, qual a importância da poesia no mundo?
Como deu pra perceber, na poesia não há definições fechadas e, portanto, sua importância para o mundo não é diferente, segue a mesma tendência subjetiva e pessoal. Para César de Oliveira, “a grande relevância da poesia no mundo é inverter ângulos de percepção. Não é necessariamente informar, mas deformar, para, quem sabe, transformar. A poesia é essencial para mim porque funciona como um catalisador de percepções”, revelou.
César segue a máxima das expressões de poetas quando dizem que a poesia deixa de ser deles quando publicada. Pois cada pessoa terá uma experiência diferente depois de lê-la e a molda a realidade de cada leitor. “Vejo todos os dias centenas de imagens da/na vida rotineira. Algumas delas são escolhidas para que eu as comunique através da linguagem trabalhada. Quem me ler não verá como eu vi, mas verá de forma diferente da que está habituado a ver”.
A poetisa e técnica em Assuntos Educacionais do Campus Aracaju, Silene Santana, co-autora do livro ‘Espinhos e Rosas: poesias e prosas’, com Lya Salem, utiliza uma metáfora do trabalho dos insetos para tentar definir. “A poesia é como as abelhas polinizadoras buscando flores e produzindo o alimento para a alma do poeta, no mundo inteiro”, disse.
Sem rodeios, Deivesson Lima diz: “A poesia é importante porque humaniza. Ela cria pontes entre pessoas, tempos e experiências. Em uma realidade marcada por desigualdades e conflitos, a poesia permanece como um gesto de escuta, memória e esperança. Para mim, a poesia existe porque é linguagem viva, porque é possibilidade de dizer o indizível e porque, de alguma forma, ela sempre encontra uma maneira de transformar silêncio em voz”, afirmou.
Iara Bichara, professora de Língua Espanhola do campus Aracaju e co-autora do livro ‘‘Dizeres do tempo, nuances da vida’, juntamente com Johnatan Santos, destaca que “a poesia tem um papel importante na medida em que contribui para a humanização das relações e para o desenvolvimento da sensibilidade, e para lembrar que o belo é necessário. A palavra deve ser dita, mas não precisa ser dura. A poesia provoca deslocamentos, tensiona percepções e amplia formas de compreender a realidade”, declarou.
“A importância da poesia no mundo é sobre essa particularidade que ela traz ao descrever tudo aquilo que sentimos e não sabemos como dizer. É a leitura que outras pessoas que nem nos conhecem conseguem fazer de nós e que passam a nos enxergar ali no meio das palavras, dos sentimentos”, descreve Vitor Vilas Bôas.
Já a professora Elza Ferreira vai na contramão e, diz que a importância da poesia no mundo é nenhuma. “A poesia não serve para nada pois ela não é utilitarista, não é ferramenta, não é plataforma, não é aplicativo. É registro dos nossos amores e dores; é transcrição das nossas fantasias e angústias; é o lugar onde a gente lê mentiras que nos gritam verdades!!!”, determinou.
Mas se a poesia não é necessária no mundo então por que escrevê-la? Um célebre pensamento do poeta Ferreira Gullar, talvez dê uma pista. "A arte existe porque a vida não basta", haja vista que sugere que a realidade cotidiana é limitada, insuficiente ou ‘pouca’ para suprir as necessidades humanas de sentido, beleza e expressão. Então a arte preenche esse vazio, inventando realidades e ampliando nossa experiência existencial.
Sendo assim, Vitor Vilas Bôas define que “escrever poesia é a forma de deixarmos para o mundo um legado de beleza através do nosso olhar. Cada olhar é único, mas que traduz em palavras a beleza dessa nossa existência e que permite que outras pessoas possam sentir junto conosco”.
A percepção do poeta Deivesson Lima é a poesia como uma resistência ao cotidiano e como uma maneira de definir a existência. “A poesia é uma forma de olhar o mundo com mais sensibilidade. Ela existe porque o ser humano precisa nomear aquilo que sente: as alegrias, as perdas, as revoluções íntimas, as inquietações sociais. A poesia me acompanha na vida pública, no trabalho, nas atividades voluntárias ensinando música na igreja e nas reflexões sobre a sociedade”, salientou.
Já César de Oliveira, tem um pensamento na construção cuidadosa de argumentos. Para o poeta, escrever vai além da subjetividade do sentir. “A poesia representa para mim possibilidades, porque a criação poética expande a linguagem e a visão da existência. Poesia não é apenas sentimento, não é apenas visão política. Poesia é trabalho com linguagem (com metáfora, com metonímia etc.). É a soma das camadas de elaboração que determina em grande medida o impacto do poema”, expôs.
A visão da professora Elza é clara. Ela afirma que para escrever poesia tem que ler poesia. Não há fórmula, há formas e nenhum ineditismo sentimental ou temático. “Para escrever poesia não se pode ter pressa e tem de lê-la em voz alta saboreando os sons, imaginando a cor das palavras. Não é escrever sobre a dor ou o amor que sente. É elaborar a dor. Não é escrever sobre a denúncia da guerra. É escrever de modo belo sobre a guerra, é pôr beleza na morte, no humano, no mundo. Para se tornar escritor a primeira fórmula é reconhecer-se um nada, saber que muitos poetas já escreveram sobre todos os seus sentimentos (e para saber disso tem de ler os poetas) mesmo assim você precisa escrever, você escreve para si torcendo que outros leiam, mas em princípio não são os outros que querem sua poesia é você que quer escrevê-la”, sentenciou.
E por que a poesia tem uma data específica?
Bem, a poesia é tida como uma das expressões mais puras da humanidade. Sendo assim, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), na sua 30ª Conferência Geral, em 1999, escolheu a data para homenageá-la, promover a diversidade das línguas e intensificar os intercâmbios entre culturas. A data também serve para reverenciar os grandes nomes da poesia mundial, como: Arthur Rimbaud, Carlos Drummond de Andrade, Emily Dickinson, Federico García Lorca, Maya Angelou, entre tantos outros e, ainda como uma oportunidade para que leitores conheçam a poesia de novos autores.
E por falar em novos autores, desde 2017, a EDIFS também tem publicado livros do gênero; já são 13 publicações compondo seu catálogo entre antologias e coletâneas de alunos e servidores, guias poéticos, que versam sobre autores/poetas e de poesias propriamente ditas, incluindo as de cordel. Iara Bichara, professora de Língua Espanhola do campus Aracaju, é uma das poetisas que publicou livro pela EDIFS. Ela lançou em 2019, com o então aluno Johnatan Santos, o e-book ‘Dizeres do tempo, nuances da vida’. A obra reúne poemas que dialogam com o tempo, os afetos, as experiências cotidianas e os processos de construção do sujeito ao longo da vida. “Na minha vida, a poesia funciona como uma forma de mediação entre o que é vivido e o que pode ser dito. É um espaço de organização do pensamento e das emoções, além de possibilitar a construção de conexões com o outro. Mais do que um exercício de escrita, ela representa uma maneira de permanecer em diálogo com o mundo e comigo mesma”, destacou.
Eu, Anderson Ribeiro, este repórter-poeta, também sou um deles. Único autor solo da lista de publicações da EDIFS. Como já dito no início do texto, são dois e-book lançados em 2023. O ‘30 Poemas dos Tempos Sombrios e Outros Poemas’ que retrata o país a partir de 2018 e apresenta ‘o Brasil que reflete mágoas, frustrações, ódio e rancor’ e representa a parcela da sociedade que sempre foi estigmatizada e subjugada, que resistem para existirem. E o ‘Poemas Feitos de Horizontes’ que trata de sentimentos e emoções que atravessam e se enrolam em todos nós. Amor, felicidade, auto entendimento, saudade... lembranças. “Estava com esses livros prontos há anos e não deixavam de serem projetos até surgir a oportunidade de submetê-los a apreciação da Editora do IFS. Para minha surpresa os dois foram aprovados e, enfim os publiquei. Que venham novos projetos agora!”.
De acordo com Kelly Barbosa, editora-chefe da EDIFS, a instituição valoriza poesia e literatura de cordel como expressão cultural e formativa. Elas ocupam um espaço importante nas iniciativas culturais e editoriais do Instituto Federal de Sergipe (IFS). Para a EDIFS, incentivar a produção literária dentro da instituição é uma forma de ampliar o processo formativo e valorizar diferentes formas de expressão artística e cultural.
Kelly destaca que a presença da poesia em uma instituição de ensino técnico e tecnológico contribui para o desenvolvimento da sensibilidade, da criatividade e da reflexão crítica. “A formação oferecida pelos Institutos Federais não se limita apenas à dimensão técnica. Ela envolve também a formação humana, cultural e cidadã. A poesia é um espaço de expressão que permite às pessoas refletirem sobre suas experiências, sobre a sociedade e sobre o território em que vivem”, afirmou.
A professora Elza Ferreira complementa dizendo que “a poesia numa instituição profissional tem lá sua importância pois é o momento de os estudantes cultivarem a contemplação, o silêncio e se sentirem singulares quer quando a leem ou quando a escrevem. A poesia é o momento da estética para fazer par com a técnica. A poesia no ambiente técnico ou tecnológico desperta a política, a ética, os sonhos, a criatividade. Lembra todos os dias que você não é uma máquina: é gente!”.
A Poesia de Cordel
A editora do instituto possui caráter multidisciplinar e híbrido, publicando tanto obras científicas quanto produções culturais e literárias. Nesse contexto, estudantes, docentes e técnicos administrativos também podem participar dos processos editoriais voltados à produção literária.
Entre as iniciativas realizadas pela editora estão três publicações dedicadas à poesia e à literatura de cordel: Antologia Poética, Antologia de Literatura de Cordel e Inspirações Poéticas. As obras foram lançadas em 2017 e 2019 e nasceram a partir de editais que incentivaram a produção autoral dentro da comunidade acadêmica.
À época, a Editora IFS promoveu atividades formativas em diversos campi da instituição, em parceria com cordelistas do estado de Sergipe. Durante as ações, foram realizadas oficinas e encontros que apresentaram aos participantes o universo da poesia e da literatura de cordel, abordando elementos como estrutura, linguagem e processos criativos.
Após o momento formativo, os interessados puderam submeter seus textos autorais para avaliação. As produções passaram por análise de especialistas convidados — entre poetas e cordelistas — e os trabalhos selecionados passaram a compor as coletâneas publicadas pela editora.
Além de estimular a produção literária, as publicações também passaram a ser utilizadas em atividades pedagógicas e culturais dentro da instituição. “Em diferentes momentos, os livros foram incorporados a rodas de leitura, discussões em sala de aula e ações de incentivo à leitura promovidas em ambientes acadêmicos e bibliotecas. Alguns dos participantes das coletâneas também continuaram desenvolvendo atividades literárias posteriormente, mantendo o vínculo com a escrita e com a produção poética”, revelou Kelly que também é uma das autoras das antologias.
As obras publicadas pela editora estão disponíveis em acesso aberto no repositório institucional e no site da Editora IFS. Parte dos títulos também integra o acervo físico das bibliotecas da instituição, ampliando o acesso da comunidade acadêmica e do público em geral.
A EDIFS
Após um período de reestruturação institucional da editora e de atualização de seus documentos editoriais, a expectativa é que um novo edital de submissão de livros seja lançado na primeira quinzena de abril de 2026. “O edital não será específico para poesia, mas as linhas editoriais continuarão contemplando áreas como cultura, artes, literatura e poesia, permitindo a submissão de obras nesses gêneros”, disse Kelly.
A editora também estuda a possibilidade de desenvolver novos projetos voltados à produção literária e à integração com a comunidade, incluindo iniciativas que ampliem a participação de diferentes públicos e aproximem ainda mais a instituição das expressões culturais presentes em seu território. “Incentivar a escrita e a publicação de obras literárias dentro da instituição é também uma forma de fortalecer a autonomia criativa e cultural da comunidade acadêmica. Quando alguém publica um poema, percebe que sua voz também pode ocupar o espaço do livro. Isso tem um valor formativo imenso”, concluiu a editora-chefe da EDIFS.
Links de todas as publicações do gênero da EDIFS
Algumas poesias dos autores desta reportagem
No balanço da rede
Foi na madrugada que ouvi o vizinho ninar lembranças na rede
A cada vai e vem uma música rangia no silêncio feito ferrugem
Era um som de abandono que acompanhava as ranhuras do seu coração
Partido em tantos cacos pela partida da sua mulher que não ia mais abraçar
Ele varou a madrugada a mirar absorto a parede da sala
Tentando tatear fotografias presas na memória enquanto se balançava na rede que rangia o tempo
Que de tanto ranger esqueceu-se no tempo dentro de si para manter-se ainda vivo.
Anderson Ribeiro
*Do livro ‘Poemas Feitos de Horizontes’
Poesia inacabada, ridículos versos
Poesia inacabada, ridículos versos, o poeta suspira sua última poesia.
Poeta ridículo, Patético.
Diz-se poético escrevendo sobre aquilo que ama.
Poeta nem é Pessoa, nem é gente.
Poeta engana.
Escrevinha a vida até sem saber fazer cartas de amor,
e como escreveu um tal Fernando,
“todas as cartas de amor são ridículas”
Eu mesmo, não sou poeta, escrevo do escárnio,
sobre os que estão nos escombros da vida,
Àqueles que poetizam transeuntes, as vielas, as ruas,
os becos, praças e avenidas,
Que nunca escreveram cartas, ou que tiveram paixões nunca vividas.
Falo do amor e do asco, dos que não têm pão,
Dos invisíveis sem mãe, sem pai, sem irmão,
Daqueles que têm o céu como teto,
Cuja fina flor do afeto é ter a calçada como abrigo,
e como amigo um cão.
Todo poema de amor é ridículo
Com mão recolhida, toda a esmola é em vão.
Talvez esse seja apenas um devaneio tolo,
De quem burila a emoção,
De quem sabe ser fingidor das suas próprias dores,
Como as dores que deveras sente,
Corroendo as cordas do coração.
Ser poeta é ser andarilho da razão
Perscrutando emoções no caminho,
Ver beleza nos vieses,
Sussurrar amor nos reveses,
Redarguir ao vento as questões da vida.
Eu acho e me vejo como todo poeta pretenso.
Pois tenta encenar em verso a sua e as outras vidas,
No mortal palco da existência.
Que seja ridículo, e que seja como flor,
O poeta sabe que a vida ecoa nas linhas que escreve,
Sabe que em um verso despretensioso,
Amores florescem no coração dos tolos.
Vou-me indo, nesta poesia inacabada,
Levando comigo versos indizíveis,
De quem sabe ser ridículo o medo de escrever,
Que toda poesia demanda coragem.
Vou poeta dos meus versos vagabundos,
Perambular poesias sem muita vaidade
Transformando o caos, versejando o amor,
Tudo acaba em poesia,
Do poeta, os versos são um vasto imprevisível,
Apenas o poeta vê além da realidade.
Deivesson Lima
O pôr do sol
Se vai mais um dia,
Se vai o calor do dia,
Iniciando a noite seu frio.
Não tive grandes vitórias,
Porém a luta foi tardia, doída;
O leão foi morto! Eu venci!
No contorno do céu azul, um alaranjado aparece,
sorrio para o sol que vai
embora dizendo um “Até logo”
A esperança que se esfria na noite,
Se aquece com o Sol, seu calor,
Em cada novo amanhecer. . .
Johnatan Santos
*Do livro ‘Dizeres do tempo, nuances da vida’
Dores da Existência
O que pode importar agora?
A dor rompeu a pele falha;
E agora, onde pode parar?
Respira, fecha os olhos,
Balançar a cabeça
Já não adianta.
São as dores da existência
Aflorando em nossas almas;
Reviver para poder viver.
Não há sentimentos para guardar,
Nem como os conservar
E então, a gente segue em frente.
Iara Bichara
*Do livro ‘Dizeres do tempo, nuances da vida’
Libertando
Se eu pudesse sairia descalça
Numa estrada de barro
Para sentir o pó fino
Da terra que me gerou.
Se eu pudesse correria nua
Na noite escura
Para sentir meu corpo livre
Sem receio de me aceitar.
Agora quero me lançar ao mar,
Brigar com as ondas
E mergulhar para o fundo
Para nunca mais retornar.
Silene Santana
*Do livro ‘Espinhos e Rosas, poesias e prosas’
Âmago
A mordida que devora o estômago
Mastiga dores que desconheço
Liberta seres que jamais vi
Ou os encaro, ou enlouqueço
O meu bálsamo foi o metal
que sutilmente atravessou a alma
contrário às nuvens levou o mal
fechei os olhos, dormi na calma
Som que se faz cura,
coração aberto,
aterrada e segura,
a alma desperto.
Lya Salem
*Do livro ‘Espinhos e Rosas, poesias e prosas’
In verso
Em cada verso meu, o seu nome se esconde sob os detalhes de como os meus olhos te veem.
Cada gesto, cada olhar, cada sorriso...
Não há uma linha sequer onde não haja um pedaço seu.
E quando me pede para lhe confidenciar como encontro o verbo certo em que descrevo o que sinto, nego.
Como se fosse realmente possível negar aquilo que é óbvio.
Como se bastasse não dizer o seu nome para que deixasse de existir em mim.
Existe.
E persiste a ideia de que o tempo não apaga o que parece estar incrustado no peito. Muda o mundo, mas teimo em colocar no mudo a voz da razão.
Silencio o seu nome, mas em cada verso meu há um pedaço seu...
Vitor Vilas Bôas
Faixa de Gaza
“Difícil fotografar o silêncio.”
Manoel de Barros
O menino levantou os braços
quando o mirei com minha câmera:
ele viu fuzil em minhas mãos.
Seus olhos marejaram
quando lancei a minha lente ocidental
sobre sua existência veloz.
Viu fuzil em minhas mãos.
A lágrima cristalina
abriu caminho
no deserto de seu rosto.
Um fuzil em minhas mãos.
O estalo luminoso no céu
ainda reflete
em seu olhar.
O disparo da Nikon estilhaçou a imensidão.
César de Oliveira
*Do livro ‘Lençóis Freáticos’



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