Jovens transformam aprendizados em novas formas de olhar o mundo
Relatos de estudantes e egressos mostram como a formação no IFS atravessa a sala de aula e ganha sentido na tecnologia, na comunicação, no esporte e na vida em comunidade.
Na fotografia “Olhares que não se cruzam”, uma pessoa permanece sentada no chão enquanto um casal atravessa a calçada carregando sacolas. A cena, registrada em Lagarto por Wedson Andrade de Souza Filho, egresso dos cursos de Edificações e de Arquitetura e Urbanismo do Instituto Federal de Sergipe (IFS), parece suspender por um instante a rotina da cidade: três presenças dividem o mesmo espaço, mas seguem movimentos que não se encontram. Antes da formação, Wedson acredita que talvez enxergasse apenas uma rua movimentada. Depois do percurso acadêmico e da pesquisa, passou a reconhecer naquela imagem as barreiras invisíveis, as relações sociais e os afetos que atravessam o cotidiano urbano. A fotografia, nesse caso, não aparece apenas como registro visual, mas como consequência de uma aprendizagem que deslocou sua forma de olhar para o território. “Antes da arquitetura, talvez eu enxergasse apenas uma rua movimentada. Depois da graduação e da pesquisa, passei a perceber que a cidade também é feita dessas barreiras invisíveis, das relações sociais e dos afetos que acontecem - ou deixam de acontecer - no cotidiano”, explica.
A história de Wedson integra esta reportagem especial alusiva ao Dia Mundial das Habilidades dos Jovens, celebrado hoje, 15 de julho. Instituída pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2014, a data chama atenção para a necessidade de preparar as novas gerações para o trabalho, para a participação social e para os desafios do desenvolvimento. Em 2026, o tema “Habilidades para um futuro compartilhado” ampliou a discussão sobre os conhecimentos necessários para que jovens participem de sociedades e economias em transformação. Nas experiências reunidas nos campi Lagarto e São Cristóvão, a habilidade não aparece restrita ao domínio de uma técnica ou à execução de uma tarefa: ela se manifesta na leitura de uma rua, na criação de uma plataforma de adoção animal, na descoberta da voz em público e na corrida como forma de reorganizar a rotina. São aprendizados que começam em cursos, pesquisas, projetos, apresentações e práticas esportivas, mas continuam produzindo sentido quando a atividade acadêmica termina.
Os números dimensionam a urgência desse debate. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, em 2025 cerca de 260 milhões de pessoas entre 15 e 24 anos, aproximadamente uma em cada cinco no mundo, não estavam empregadas nem participavam de atividades de educação ou formação. No Brasil, a PNAD Contínua do IBGE registrou, no mesmo ano, que 17,5% das 46,6 milhões de pessoas de 15 a 29 anos não estavam ocupadas, não estudavam nem se qualificavam. O percentual havia recuado em relação aos 22,4% de 2019, mas as desigualdades permaneciam: a proporção chegava a 22,8% entre mulheres, diante de 12,4% entre homens, e alcançava 19,8% entre pessoas pretas ou pardas, ante 14% entre pessoas brancas. Ao mesmo tempo, o Censo Escolar 2025 contabilizou 3,1 milhões de matrículas em cursos técnicos, o maior número já registrado, e apontou que 20,1% dos estudantes do ensino médio da rede pública estavam matriculados nessa modalidade; em 2021, eram 11,5%. Esses dados mostram que discutir habilidades juvenis envolve acesso, permanência e condições reais para transformar formação em participação social e profissional.
Da cidade ao cuidado
A trajetória de Wedson parte de ruas conhecidas. Aos 26 anos, ele recorda que frequentava o centro de Lagarto, suas praças, mercados e prédios públicos, sem se perguntar como aqueles espaços eram construídos, planejados ou ocupados. No curso técnico em Edificações, aprendeu a reconhecer materiais, estruturas, coberturas, sistemas construtivos, fachadas, fissuras e infiltrações. Na graduação em Arquitetura e Urbanismo, outras questões passaram a compor essa leitura: por que as pessoas escolhem determinados percursos, como usam uma calçada e o que as faz permanecer em um lugar por causa da sombra, da ventilação ou da sensação de acolhimento. A fotografia, que já fazia parte de sua vida antes da graduação, aproximou essas dimensões ao registrar pessoas, encontros, luz, afetos e memórias que não aparecem da mesma forma em uma planta ou em um desenho técnico. Essa convergência orientou o Trabalho de Conclusão de Curso “Fotografar a cidade é habitar o instante: imagens, afeto e arquitetura do cotidiano”, aprovado em fevereiro deste ano, no qual Wedson realizou caminhadas fotográficas por Lagarto, produziu um ensaio sobre a vida urbana e analisou as imagens a partir de dimensões técnicas, teóricas e afetivas.
A cidade que levou Wedson a refazer o olhar apresentou a Leonardo de Jesus Santana outro tipo de problema cotidiano. Em Lagarto, os animais abandonados já faziam parte de seus percursos, mas a aproximação com pessoas que dedicavam tempo e recursos ao cuidado deles modificou sua relação com a situação. A esposa tornou-se sua principal referência, e as conversas com cuidadores independentes revelaram as dificuldades para divulgar adoções, conseguir apoio e fazer com que as informações chegassem a possíveis adotantes. Estudante do oitavo período de Engenharia Elétrica do Campus Lagarto, Leonardo percebeu que os conhecimentos ligados à tecnologia poderiam contribuir para organizar essa rede. Ao lado de mais dois colegas, começou a desenvolver o Adote Pet, plataforma criada para reunir animais disponíveis para adoção, cuidadores, apoiadores, parceiros e pessoas interessadas em oferecer um novo lar.
No relato de Leonardo, a programação aparece como instrumento, mas não como ponto final. A equipe identificou que muitas tentativas de adoção dependiam de publicações nas redes sociais, que perdiam visibilidade conforme novas postagens ocupavam o espaço. O Adote Pet passou a reunir informações em um ambiente digital com mapa interativo, divulgação de animais e cadastro de cuidadores e parceiros. A plataforma já possui uma versão funcional disponível para uso, enquanto outras funcionalidades e uma versão para celular seguem em desenvolvimento. “A maior dificuldade foi transformar uma ideia em uma ferramenta que realmente fosse útil para diferentes públicos. Como equipe, tivemos que planejar funcionalidades, validar sugestões e adaptar o projeto diversas vezes para atender melhor às necessidades dos usuários”, relata. O contato com cuidadores, protetores e instituições também levou o grupo a reconsiderar soluções que pareciam adequadas sob o ponto de vista técnico. Depois das primeiras divulgações, uma representante do setor de Zoonoses da Secretaria Municipal de Saúde conversou com a equipe, e uma das possibilidades discutidas prevê que pessoas que cadastrem animais para adoção possam ter prioridade nos serviços de castração, caso a parceria seja formalizada. “Também percebemos que a tecnologia só faz sentido quando atende às necessidades reais das pessoas”, afirma Leonardo.
Formação como lente
As experiências de Wedson e Leonardo encontram eco na análise de Marco Arlindo de Melo Nery, docente que trabalha com as bases teóricas da Educação Profissional e Tecnológica no Mestrado em Educação do IFS. Para ele, a formação integral considera o estudante em suas dimensões biológica, psicológica, social, econômica e cultural. A preparação técnica permanece como parte fundamental do processo, mas precisa estar articulada a conhecimentos científicos, culturais e históricos que ajudem o jovem a compreender o mundo no qual exercerá sua atividade. Marco defende que as diferentes áreas do currículo dialoguem para que aquilo que é estudado encontre sentido na experiência dos alunos, sem ficar fragmentado em conteúdos utilizados apenas dentro da sala de aula.
Um dos sinais dessa formação aparece, segundo Marco, quando o estudante começa a relacionar espontaneamente o conhecimento com acontecimentos da própria vida. Ele menciona situações em que o jovem assiste a um filme, lê uma notícia ou observa uma dinâmica familiar e reconhece ali temas discutidos em sala, como mundo do trabalho ou cidadania. “Nesses casos, o conhecimento virou uma lente para enxergar e interpretar a realidade, e não uma gaveta que ele só abre dentro da sala de aula”, aponta. A imagem da lente ajuda a compreender tanto a cidade examinada por Wedson quanto o problema social ao qual Leonardo procura responder. Em ambos os casos, o aprendizado oferece uma nova forma de reconhecer aquilo que já estava próximo, interpretar suas relações e tomar decisões diante do que foi percebido.
Marco também inclui nessa formação a convivência, o trabalho coletivo, a expressão oral, o cuidado com o corpo e a participação em projetos. A convivência desenvolve alteridade, tolerância à frustração e inteligência emocional; o trabalho em grupo permite compreender relações de interdependência e formas de liderança; a comunicação oferece condições para apresentar ideias, argumentar e defender pontos de vista; e o cuidado corporal envolve autocuidado, ergonomia, saúde mental e respeito aos próprios limites. Nos projetos, os estudantes precisam lidar com prazos, imprevistos, mudanças e resultados que nem sempre correspondem ao planejamento inicial. Essas experiências aproximam teoria e prática e fazem com que a técnica seja compreendida dentro dos contextos, relações e consequências que acompanham sua utilização.
A voz e o corpo
No Campus São Cristóvão, a passagem do conhecimento para a vida cotidiana aparece na voz de Otávio Kauã Souza Teles, de 17 anos, estudante do terceiro ano do curso técnico integrado em Manutenção e Suporte em Informática. Ele costumava sentir nervosismo, aflição e vulnerabilidade às críticas quando precisava apresentar trabalhos ou expressar uma opinião em público. A frequência dos seminários colocou-o diante de uma escolha recorrente: enfrentar a apresentação ou deixar de realizar a atividade e perder pontos. Em um trabalho de grupo, Otávio decidiu dispensar o apoio do celular e confiar no conhecimento sobre o assunto, nos movimentos do corpo e nos recursos de linguagem que havia estudado. “A primeira situação foi em uma apresentação em grupo, em que não precisei de celular. Só precisei de um pouco de conhecimento sobre o assunto que seria abordado e de usar alguns elementos corporais e linguísticos para ganhar a atenção do público-alvo”, recorda. No fim, vieram palmas, elogios e perguntas dos colegas sobre como ele havia feito aquilo. Foi o momento em que percebeu ter alcançado seu objetivo.
O interesse pela comunicação ganhou outra dimensão depois que uma docente indicou a participação na Campus Party. Ao acompanhar as palestras do evento, Otávio passou a estudar oratória e a considerar a possibilidade de se tornar palestrante. Em uma disciplina do segundo ano, a turma recebeu a tarefa de criar uma empresa e apresentar a proposta aos colegas, o que reforçou a necessidade de organizar ideias e estabelecer uma relação com o público. Mais tarde, ele fez uma exposição sobre o impacto das redes sociais no cotidiano e ouviu de alguns colegas que haviam reduzido o tempo de uso depois da apresentação. A mudança também apareceu longe das avaliações escolares. Durante seu aniversário, em 2024, começou espontaneamente a agradecer às pessoas presentes, surpreendendo familiares que não estavam acostumados a vê-lo se expressar daquela maneira. A comunicação aprendida para cumprir uma atividade começava a ocupar outros momentos de sua vida.
Também no Campus São Cristóvão, Kauan Cristian Rufino dos Santos encontrou na corrida uma forma de lidar com um período marcado por uma decepção provocada por alguém próximo. Estudante de Agropecuária, ele se afastou das amizades, passou a discutir com a mãe e perdeu o ânimo nos estudos. Nos primeiros treinos, duvidava que pudesse correr 500 metros, mas conseguiu completar um quilômetro sem parar. Mais tarde, durante um treino de dez quilômetros, percebeu que o exercício interferia no modo como enfrentava aquele momento. “Foi em um treino de 10 km, e eu estava muito animado para alcançar esse marco. Quando cheguei aos 5 km, percebi que estava me sentindo mais leve e que a corrida estava ajudando a aliviar o fardo que eu sentia”, conta. O efeito se tornou mais evidente quando recuperou a disposição para ir à escola, realizar as tarefas diárias e percebeu melhora na autoestima. A preparação para a Meia da Conceição, prova de 21 quilômetros prevista para dezembro, em Aracaju, acrescentou à rotina cuidados com alimentação, hidratação, alongamento e atenção às respostas do corpo. Com apoio de um dos docentes de Educação Física do IFS, Kauan recebeu orientações sobre técnicas e oportunidades ligadas à atividade. “Aprendi que, mesmo cansado, com dores do treino anterior ou com diversas preocupações do dia a dia, preciso me manter focado para alcançar os objetivos que tenho para corridas futuras. Também entendi que preciso ter paciência com o desempenho nos treinos, pois nem sempre eles acontecem como o esperado”, afirma.
Instituição e território
As trajetórias de quem fotografa a cidade, desenvolve uma plataforma de adoção, aprende a falar em público ou reorganiza a vida por meio do esporte também revelam o modo como a formação se estrutura dentro do IFS. Alysson Santos Barreto, pró-reitor de Ensino do Instituto, situa essas experiências no funcionamento institucional e afirma que a formação integral aparece desde a estruturação dos cursos, ganhando forma na integração entre ensino, pesquisa, extensão e inovação, além de projetos integradores e interdisciplinares, atividades de extensão, visitas técnicas, práticas laboratoriais, ações de inovação e eventos acadêmicos e culturais. “O estudante é incentivado a compreender os conhecimentos em sua complexidade, desenvolver autonomia, capacidade de reflexão e atuação responsável nos contextos profissional e social”, afirma. Esse conjunto de experiências, avalia o pró-reitor, favorece a articulação entre teoria e prática e impede que a formação se restrinja ao domínio de conteúdos ou técnicas específicas.
Essa materialização assume formas diferentes conforme o nível de ensino. No ensino médio integrado, Alysson destaca a articulação entre formação geral e formação técnica, com projetos integradores, práticas profissionais, visitas técnicas e outras experiências formativas. Nos cursos superiores, aponta a curricularização da extensão, os projetos de ensino, pesquisa e extensão, os estágios obrigatórios e não obrigatórios e as ações de inovação como caminhos para aproximar os estudantes de problemas reais. A proposta, segundo ele, busca formar profissionais capazes de compreender os aspectos técnicos, éticos e sociais da própria atuação, com atenção aos contextos, às consequências e aos impactos sobre outras pessoas e sobre a sociedade.
O vínculo com os territórios também aparece como parte desse processo. Alysson explica que os cursos e as experiências formativas consideram características socioeconômicas, culturais e ambientais das regiões onde os campi estão inseridos, com atenção às demandas locais e aos arranjos produtivos. “Essas trajetórias revelam que o IFS contribui para ampliar as formas de aprender e de atuar no mundo”, afirma. O pró-reitor relaciona esse resultado à participação dos estudantes em soluções tecnológicas para demandas da comunidade, em projetos de pesquisa e extensão, em ações ligadas à cultura e à realidade dos territórios e em iniciativas que fortalecem o protagonismo diante de problemas concretos.
Depois da voz e do corpo, a reportagem retorna ao ponto de partida: a capacidade de perceber relações que já estavam próximas, mas ainda não haviam sido vistas daquela forma. A segunda fotografia escolhida por Wedson para representar sua mudança de olhar recebeu o título “Dedo de prosa”. A imagem registra uma conversa em meio à rotina da feira e mostra um espaço de comércio convertido, por alguns instantes, em lugar de convivência. No Adote Pet, Leonardo e os demais integrantes da equipe procuram construir outra possibilidade de encontro, reunindo em um mesmo mapa animais, cuidadores, apoiadores e possíveis adotantes. Em uma imagem, a aproximação acontece diante da câmera; na plataforma, ela depende de conexões que ainda precisam ser estabelecidas. Os dois trabalhos nasceram de áreas técnicas distintas e chegaram a uma descoberta semelhante: prestar atenção ao que estava próximo pode modificar a maneira de compreender uma cidade e de participar daquilo que acontece dentro dela.


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