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29 DE JANEIRO

Visibilizar para transformar: educação, políticas públicas e trajetórias trans no IFS

Escrito por MONIQUE DE SA TAVARES VIARD | Publicado: Quarta, 28 de Janeiro de 2026, 21h25 | Última atualização em Quinta, 29 de Janeiro de 2026, 13h17

No país que mais mata pessoas trans no mundo, ocupar a escola e a docência é um ato político de existência, permanência e transformação

IFS Dia da Visibilidade Trans 2“Ser professora, sendo uma travesti é, antes de tudo, um ato de resistência, alimentado pela crença de que a educação ainda é uma importante ferramenta para a construção de mundos outros possíveis. Ocupar este espaço é, para mim, a possibilidade não só de curar minhas feridas; mas também de construir ferramentas para me defender das violências de uma sociedade que me desautoriza como produtora de conhecimento e como humana. É ainda poder mostrar para jovens trans que é possível romper com os estereótipos e com os lugares a que sociedade insiste em nos colocar”. O sensível depoimento é da professora de Letras – Português, do Campus São Cristóvão, Manuela Rodrigues. Ela vai além e acrescenta que: “ser professora travesti é arrancar o grito das que vieram antes de mim para, no hoje, construir possibilidades outras para as pessoas trans do amanhã...”.

WhatsApp Image 2026 01 28 at 12.58.49Neste 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans, Manuela ecoa o grito da existência de uma mulher trans, uma mulher cuja carreira é consolidada e, como docente de Língua Portuguesa, é reconhecida em sua área. No entanto, a realidade da professora “Manu”, como é conhecida carinhosamente na comunidade acadêmica do Instituto Federal de Sergipe (IFS) é ainda algo distante quando falamos do país onde mais se mata pessoas trans e travestis no mundo, segundo pesquisa recente divulgada na última segunda, 26, pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Conforme o dossiê, publicado pela Antra, só no ano de 2025, 80 pessoas trans e travestis foram mortas no Brasil. As vítimas, em sua maioria, são jovens trans negras, empobrecidas, nordestinas e assassinadas em espaços públicos, por meios cruéis.

Em meio a esse cenário brutal, a presença de trans e travestis em instituições de ensino como o IFS evidencia o papel fundamental da escola na promoção da inclusão e da justiça social. A educação torna-se um caminho concreto para romper ciclos de exclusão que historicamente empurram essas pessoas para a marginalização e para ocupações subalternas, levando-as a diversas situações de violências sejam físicas ou verbais.

WhatsApp Image 2026 01 26 at 15.17.52O mês da Visibilidade Trans é uma oportunidade de ser visível, de fato, de falar sobre dificuldades e de fortalecer a comunidade. “As cotas e a permanência nas instituições de ensino são ações afirmativas, nossas maiores pautas dentro do ensino público. As cotas para pessoas transexuais, transgêneros e travestis são importantes, mas não são o suficiente”, ressalta o estudante transmasculino Samy Peixoto, do curso de Agroecologia do Campus São Cristóvão. O aluno destaca ainda que pessoas transgêneros, em sua maioria, são economicamente vulneráveis, o que dificulta não apenas o ingresso, mas também a permanência em instituições de ensino.

A permanência estudantil tem sido trabalhada de forma transversal pela Pró-reitoria de Ensino (Proen) do IFS, com ações voltadas ao acesso, à vida acadêmica e ao êxito dos estudantes. “No ingresso, o foco principal é a recente reserva de vagas em Processos Seletivos. Para a permanência e êxito, trabalhamos em conjunto com a Assistência Estudantil como forma de garantir que editais de auxílio considerem as vulnerabilidades específicas e que o ambiente acadêmico seja acolhedor, respeitando direitos fundamentais, como o uso do nome social”, explica a chefe do Departamento de Gestão de Ingresso (DGI), Gildevana Ferreira.

A reserva de vagas mencionada por Gildevana integra a Política voltada à inserção de pessoas trans nos processos de ingresso do IFS e representa um marco institucional. Segundo ela, o documento foi construído a partir de um olhar atento para a realidade, considerando que pessoas trans tendem a interromper suas trajetórias escolares em decorrência do preconceito.

“Não queremos apenas criar vagas, mas abrir portas que historicamente estiveram fechadas. Essa Política foi desenhada ouvindo quem sente essas dificuldades na pele e estudando como a nossa instituição poderia, de fato, ser um divisor de águas na vida desses alunos. Nosso maior objetivo é que o IFS deixe de ser um sonho distante e se torne um espaço de pertencimento e de WhatsApp Image 2026 01 27 at 15.40.58futuro para todos e todas”, reflete Gildevana.

Enfrentar a violência

O processo de construção de ambientes educacionais mais seguros passa também por ações institucionais permanentes. O Núcleo de Igualdade de Gênero e Diversidade Sexual (NIGEDS), vinculado à Pró-reitoria de Desenvolvimento Institucional (Prodin), atua no IFS com ações de acolhimento, formação e enfrentamento às violências de gênero. Segundo Adão Monteiro, coordenador do Núcleo e professor do Campus Lagarto, o NIGEDS funciona tanto como espaço educativo quanto de escuta e encaminhamento de denúncias.

“Nosso trabalho envolve letramento de gênero, rodas de conversa, palestras e ações contínuas. É fundamental que estudantes saibam identificar o que é violência e como denunciá-la. O NIGEDS também articula encaminhamentos internos e externos quando necessário”, explica.

Ele destaca que o desafio é tornar essas ações perenes, e não restritas a datas comemorativas, para que a escola seja, de fato, um ambiente seguro e acolhedor para todas as pessoas. Esse acolhimento vem sendo sentido agora (apenas no final do curso) pelo aluno Samy – o que reflete a luta constante de pessoas trans no ambiente acadêmico.

“Como um transmasculino branco no campus, e tendo feito parte de movimentos sociais, especialmente o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT), onde estive na coordenação, posso dizer que hoje, após tantos anos como estudante, sou bem acolhido e respeitado por todos os que conheço, mas sei das dificuldades e preconceitos que outras pessoas trans e LGBTQIA+ sofrem. Principalmente pessoas não brancas, transfemininas e afeminadas”, diz Samy.

Ao longo de sua trajetória no IFS, Samy contou com o apoio de profissionais que foram decisivos não apenas para sua formação acadêmica, mas também para sua permanência na instituição. Por meio de editais de pesquisa e extensão, ele teve acesso a bolsas que garantiram condições materiais para seguir estudando. Nesse percurso, Samy destaca sua atuação como bolsista em projetos desenvolvidos no Laboratório de Linguagens, Letramento e Literatura (LABILILIT), coordenado pelas professoras Manuela Rodrigues e Jocelaine Oliveira.

“Tenho o privilégio de ser bolsista e trabalhar com a professora Manuela, junto com a professora Jocelaine, em um grupo de estudos responsável por projetos importantes nas áreas de gênero, diversidade, sexualidade e antirracismo”, relata. Segundo ele, a iniciativa contemplou não apenas sua participação, mas também a de outros três estudantes trans do Campus São Cristóvão, fortalecendo a permanência acadêmica e o sentimento de pertencimento. “Essas bolsas não só colaboram para que a gente continue no campus, mas também nos fortalecem enquanto grupo minorizado”, completa.

Ao avaliar os avanços institucionais, a professora Manuela destaca que o IFS vem, ao longo dos anos, construindo mecanismos que contribuem para uma escola mais justa e equânime, especialmente para pessoas trans e travestis. Segundo ela, ações como a garantia do uso do nome social desde a inscrição nos Processos Seletivos até os documentos internos, o enfrentamento à transfobia e, mais recentemente, a adoção de cotas para pessoas trans “já criam condições mínimas de existência e permanência”.

Manuela ressalta, no entanto, que esses avanços não significam que a instituição tenha alcançado um cenário plenamente inclusivo. “Ainda há muito a se conquistar no que diz respeito à permanência e ao êxito”, afirma. Para a docente, o reconhecimento dessas limitações não anula os progressos já alcançados, mas reforça a necessidade de continuidade das ações. “Acredito que existe, dentro da instituição, o desejo de construirmos mundos outros possíveis, e é isso que alimenta as ações e o nosso esperançar”, reflete.

Ocupar diferentes espaços

Em 2025, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou uma nota técnica sobre a inclusão de pessoas trans no mercado formal de trabalho brasileiro. Os dados revelam um cenário ainda preocupante: ao cruzar informações do CPF com a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2023, o estudo identificou que apenas 25% das pessoas trans estavam inseridas no emprego formal naquele ano – índice 6,8 pontos percentuais inferior ao observado na população em geral. As desigualdades se aprofundam quando o recorte é de gênero: entre as mulheres trans, a taxa de participação no mercado formal é de apenas 20,7%, enquanto entre os homens trans chega a 31,1%.

HANNAA egressa do Campus São Cristóvão, Hannah Victória Bittencourt, hoje com 23 anos, reforça a importância da educação como instrumento de transformação social e como impulsionador de oportunidades para adentrar no mercado de trabalho. Formada no curso Superior de Tecnologia em Alimentos e nos cursos técnicos em Agroindústria e Química, ela foi premiada em eventos científicos como a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT 2024) e a Mostra Integrada de Graduação (MIG 2024).

“Após a conclusão dos cursos, dei continuidade às atividades acadêmicas, participando de eventos científicos, apresentando trabalhos e investindo em formações complementares voltadas à qualidade, processamento de alimentos e bebidas. Também tenho buscado experiências que dialoguem com pesquisa, extensão e educação, sempre com o objetivo de unir conhecimento técnico, responsabilidade social e inclusão. Esse período tem sido de amadurecimento profissional e de definição dos próximos passos na carreira acadêmica”, diz Hannah.

Para ela, ocupar um espaço técnico e científico enquanto pessoa trans foi, ao mesmo tempo, um desafio e uma experiência profundamente significativa. A egressa relata que a área científica ainda carrega padrões e expectativas rígidas, o que exige resiliência constante de quem foge às normas impostas. “Estar nesse ambiente demanda força, mas também abre oportunidades de mostrar que competência, dedicação e produção científica não têm gênero”, afirma.

Segundo Hannah, a vivência acadêmica foi decisiva para fortalecer sua identidade e sua trajetória profissional. “Aprendi a afirmar quem eu sou sem abrir mão da excelência naquilo que faço”, completa, destacando o papel da formação científica na construção de autonomia e reconhecimento.

Fomentar as políticas institucionais

Além das trajetórias estudantis e docentes, a promoção da visibilidade trans no IFS também se concretiza no trabalho cotidiano de servidoras e servidores que atuam na formulação e na execução de políticas institucionais ligadas à inclusão. Nesse contexto, a Pró-reitoria de Gestão de Pessoas (Progep) tem desenvolvido ações voltadas ao respeito à identidade de gênero e ao enfrentamento de práticas discriminatórias entre os mais de 1.300 servidores da instituição.

WhatsApp Image 2026 01 23 at 11.36.10Uma dessas iniciativas é o projeto Visibilizando as Diferenças no IFS, que busca promover a reflexão sobre o respeito à diversidade e às pluralidades do corpo funcional. “A Progep atua por meio da formação continuada e promoção de ações e eventos com temáticas que versem sobre o respeito às diversidades. Também houve a aprovação do Plano de Enfrentamento e Combate à Discriminação e ao Assédio”, destaca Carla Valois, coordenadora de Planejamento e Sistematização de Programas e Projetos em Gestão de Pessoas (CPSPP).

Carla explica que, mesmo com os avanços, ainda existem inúmeros desafios relacionados à temática, como a institucionalização da Política de Diversidade e o fortalecimento do acolhimento institucional. Segundo ela, as iniciativas já existem, mas é fundamental que a comunidade as conheça, reconheça e as coloque em prática no cotidiano.

Nesse sentido, a coordenadora destaca ações em andamento no âmbito da Progep. “Em relação ao respeito à identidade de gênero dos servidores, estamos elaborando, no âmbito do projeto Visibilizando as Diferenças, um Manual de boas práticas de convívio no IFS, no qual abordaremos condutas aceitáveis relacionadas ao respeito à identidade de gênero dos servidores e das servidoras”, detalha Carla.

A coordenadora acrescenta que a Progep também promove cursos direcionados aos direitos humanos e desenvolve ações e eventos que dialogam com a temática, como o Calendário da Visibilidade e a realização do evento: “Eu Somos Muites”. “Além disso, a temática apresenta-se como demanda recorrente por capacitações entre os servidores, estando presente no Plano Anual de Capacitação do IFS”, completa.

Ao dialogar com esse cenário, a professora Manuela reforça a importância de que as ações institucionais avancem também no enfrentamento direto às violências estruturais. “Acredito que sejam necessárias, para toda a comunidade escolar, ações concretas de combate à transfobia estrutural e à desmistificação dos discursos usados pelo movimento antigênero que tornam as pessoas trans inimigas a serem combatidas”.

A docente destaca ainda a necessidade de políticas contínuas de proteção e garantia de direitos: “É preciso criar programas de enfrentamento da transfobia no ambiente educacional, intensificar os mecanismos de denúncia e de acolhida para as pessoas vítimas de transfobia e garantir que os nossos direitos básicos possam ser respeitados”.

Visibilizar, resistir e existir

Mais do que marcar presença em datas simbólicas, a visibilidade trans no IFS aponta para um compromisso contínuo com a transformação do ambiente educacional. Para Adão, coordenador do NIGEDS, o desafio prioritário dos próximos anos é garantir que as ações sejam constantes, perenes e estruturantes. Segundo ele, não se trata de iniciativas pontuais, mas de um projeto coletivo capaz de “transformar realmente a escola em um ambiente seguro para todas e todos”.

WhatsApp Image 2026 01 22 at 19.31.50Nesse processo, o letramento aparece como eixo central, envolvendo docentes, estudantes, técnicos e a comunidade externa, para que toda a instituição esteja alinhada em uma mesma perspectiva de respeito: “tanto racial, por meio do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígena (Neabi), quanto de gênero, com a atuação do NIGEDS, para que possamos falar com respeito, nos respeitar e termos uma escola sem violência”, reflete Adão.

Esse entendimento vai ao encontro da análise da professora Manuela, ao chamar atenção para o fato de que o Brasil segue liderando o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans e diante do fortalecimento de movimentos antigênero que alimentam necropolíticas de Estado, a visibilidade e a representatividade assumem um papel estratégico. “Elas permitem mostrar a diversidade e a resiliência dessa comunidade ao mesmo tempo que permitem sistematizar ações concretas que promovam o respeito como direito e não como tolerância ou aceitação. Isso é importante para a construção de uma sociedade mais justa e equânime”.

Na mesma direção, Gildevana reforça que os avanços institucionais precisam ser acompanhados de monitoramento e aprimoramento contínuos. “Sempre há espaço para avançar. Precisamos ampliar as campanhas de sensibilização interna para toda a comunidade acadêmica e aprimorar o monitoramento dos dados de permanência desses estudantes”, afirma. O objetivo, segundo ela, é garantir que o ingresso seja apenas o primeiro passo de uma trajetória marcada pelo êxito acadêmico, pela permanência e pela diplomação.

Assim, ao reunir políticas de acesso e de gestão de pessoas, ações de permanência, formação continuada e escuta ativa, o IFS reafirma que visibilidade não é exceção nem concessão, mas parte de um projeto institucional que reconhece a educação como espaço de pertencimento.

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